quinta-feira, 28 de junho de 2018

Crítica: Jurassic World: Fallen Kingdom (2018) - The Fading Cam


Os Dinossauros Digitais da Bio-Ética

J. A. Bayona, o catalão que em 2007 assinou o filme de terror de belo efeito El Orfanato, foi o escolhido para dirigir esta sequela do reboot do franchise assinado por Spielberg, Jurassic Park. Não vale a pena ser demasiado duro com Jurassic World: Fallen Kingdom. Afinal de contas o seu propósito é bem conhecido: ser filme de entretenimento de Verão, um blockbuster em estado de graça que consegue ser ainda mais musculado e inconsequente que qualquer um dos seus 4 antecessores. Apesar de a espaços parecer uma manta de retalhos esburacada, com uma crise de identidade incapaz de decidir qual o caminho a tomar e com muitos plot holes que o enredo não consegue disfarçar, Fallen Kingdom consegue por vezes apresentar algumas cenas dignas de nota, dignas de um cérebro cinéfilo pensante que afinal de contas até tem algumas ideias (já lá iremos no final). Fallen Kingdom esforça-se para agradar os fãs, tanto do original como da sequela Jurassic World, com inúmeros efeitos de nostalgia, referências e recriações mais ou menos directas de cenas icónicas. Veja-se, por exemplo, a debandada de dinossauros que fogem do vulcão, lado a lado com os nossos "heróis", tal como haviam feito no filme original (mas aí o perigo era um t-rex); o fechar desesperado da menina Maisie de um armário enquanto o híbrido indoraptor corre na sua direcção como Lex havia feito no original na mítica cena da cozinha com os velociraptors; ou toda a artilharia pesada percorrendo a ilha, qual exército de mercenários em The Lost World. Por momento chegamos a acreditar que Sam Neill fará uma aparição. Este sentimento de nostalgia reciclado sequela após sequela e um enredo apressado, que se perde entre preocupações morais e ecológicas e buracos narrativos, fazem com que seja impossível escapar ao desinteresse do sentimento copy/paste que tem manchado a indústria do cinema norte-americano comercial mais feroz. Bryce Dallas Howard e Chris Pratt têm alguma química, sim, mas estão muito longe do carisma e desenvolvimento de personagem que outras duplas como Sam Neill e Laura Dern ou Jeff Goldblum e Julianne Moore tiveram em filmes anteriores. Chris Pratt, a determinado momento, reduz-se a um comic relief que combate mercenários corpo a corpo, distribuindo socos como se de um John McClane se tratasse. 


Os efeitos especiais gerados a computador, que transpõe para a tela todos os dinossauros, são também inexplicavelmente irrealistas, dir-se-ia mesmo inferiores aos efeitos utilizados no filme original. É certo que em 1993 foram também usados efeitos especiais práticos, nomeadamente através da construção de modelos e robôs que davam uma dimensão palpável à ameaça que simplesmente não existe em Fallen Kingdom. Ver estes dinossauros digitais, nos seus irrealistas movimentos, envergonha e muito a excelente indústria de efeitos práticos que outrora brilhou em Hollywood, e é uma pena. Tudo isso, aliado a uma indecisão entre tornar os dinossauros elementos de horror ou de aventura juvenil dentro do filme, fazem de Fallen Kingdom um filme objectivamente inferior, que, tal como os dinossauros geneticamente criados, desconhece a sua identidade. No entanto, e regressando ao cérebro cinéfilo pensante que iniciou o presente texto, fica um amargo de boca quando vemos a capacidade de J. A. Bayona, aprendiz de terror, a imprimir em Fallen Kingdom alguns dos elementos que compõe essa admiração de género, e é aí que Fallen Kingdom parece renascer dos fósseis. Quando decide encarar os dinossauros como elementos de horror mortífero que realmente são, parece que estamos a assistir a um outro filme, com uma linguagem cinematográfica segura de si que nos leva a pensar onde estavam os produtores com a cabeça, e todas essas cenas estão indubitavelmente associadas à asfixia do espaço fechado, do não ter para onde escapar. O long take subaquático, onde os protagonistas se encontram fechados dentro de uma esfera de vidro a inundar; a cena em que Dallas Howard e o seu jovem parceiro são perseguidos por um único dino-monstro dentro das instalações de segurança do parque perante uma cortina de lava incandescente que trespassa o tecto; e por último toda a sequência final, em que o ameaçador indoraptor persegue os protagonistas através dos corredores e escadarias da mansão Lockwood, em noite de lua cheia com direito a telhado gótico, qual espírito maléfico de garras compridas e afiadas que aterroriza as criancinhas que se escondem debaixo dos lençóis. É com esse minimalismo enclausurado, e não nas manadas jurássicas (e muito menos num t-rex digital cuja ameaça está mais perto de um desenho animado juvenil do que do aterrador modelo que rebentou a vedação no filme original), que Jurassic World: Fallen Kingdom consegue superiorizar-se. O franchise continuará, infelizmente e certamente, em dimensões ainda maiores e mais impessoais. Seria tão bom vê-lo em ponto pequeno e hermético outra vez, como em 1993...

Porque é bom: Algumas cenas interessantes, com apelo ao horror gótico e claustrofóbico, que permitem ao filme emergir de uma manada de dinossauros digitais

Porque é mau: Enredo esburacado, qual manta de retalhos, com identidade perdida entre ambientalismo, responsabilidade moral, clonagem, horror e aventura juvenil; fraco desenvolvimento de personagem, com um Chris Pratt demasiado estereotipado e elevado a herói que sozinho enfrenta mercenários corpo a corpo, de forma patética; dinossauros digitais francamente irrealistas que não permitem ao espectador mais empenhado obter qualquer calafrio: afinal de contas não está ali nada (saudades dos modelos de Jurassic Park em 1993)

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