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terça-feira, 12 de setembro de 2017

MOTELX 2017 - Dia #4: Missing You (2016), Berlin Syndrome (2017), Lake Bodom (2017), Lowlife (2017)


Um quarto dia com propostas que foram do thriller psicológico ao slasher viu curiosamente num dos filmes menos esperados e com menor audiência, o sul-coreano Missing You, pelas 14h, um dos pontos mais altos do Motelx. O muito aguardado Lowlife foi elogiado por algum do público presente, mas esta comédia negra gangster com um lado humano ficou-se pelas intenções. Estava também agendado A Dark Song para as 00.30h, mas um problema técnico adiou por uma hora a sua exibição o que nos impediu de o ver.


Missing You: Foi talvez o melhor filme a passar pelo quarto dia do Motelx, com uma sala a meio gás logo a seguir ao almoço. Missing You é um thriller de vingança em contexto policial ao jeito habitual da nova vaga do excelente cinema sul-coreano, numa realização muito bem afinada do estreante Hong-jin Mo, com um trabalho de camera tenso e uma belíssima cinematografia. É um filme que recorda Se7en de Fincher ou The Chaser de Hong-jin Na, entre outros filmes sul coreanos do género, com personagens fortes, assim como o seu argumento, acompanhando a já elogiada realização. No entanto existem momentos em que Missing You parece esforçar-se demasiado para entregar tensão e pequenos clímaxes, não deixando as suas personagens respirar e existir durante alguns momentos, ao invés de estarem constantemente a agir. Esse empacotar de acção acaba por criar em Missing You camadas de interesse diferentes para o espectador, cada camada com a sua personagem principal, e com ela as suas motivações e linha argumentativa, entre as várias que existem. Ainda que todas tenham os seus pontos de interesse, a do assassino e detective são sem dúvida superiores a uma terceira, uma linha argumentativa no feminino que se torna estereotipada e superficial, num papel que exigia exactamente o oposto. O excesso de acção, ainda que eficaz formalmente e substantivamente, torna a globalidade do filme num relato superficial que acaba por não conseguir dar a machada emocional que pretende no final, num filme muito ambicioso para um realizador que ainda não tem a maturidade suficiente para o dirigir com plena mestria mas que dá já sinais muitíssimo positivos.




Berlin Syndrome: Apresentado como um thriller psicológico intenso em que uma turista australiana se vê presa em cativeiro em casa de um engate de férias, Berlin Syndrome na realidade arrasta a sua antecipada trama repetitivamente, num arrastão que tem paralelo entre o espectador e o próprio filme. Num primeiro momento a psicologia das personagens, o seu maior fulcro (não vale a pena pensar em Berlin Syndrome de forma muito mais profunda que isto; se o filme fosse metáfora para os mistérios da vida sexual dos jovens adultos os nossos protagonistas seriam bem mais...jovens adultos) é bastante realista, mas a partir de determinado momento a realizadora Cate Shortland prefere elogiar a dramatização estilo conto de fadas macabro, com muitas polaróides e afirmações de estilo desnecessárias que farão rolar os olhos do espectador mais objectivo, ao invés de se focar na tal tensão que nunca existe ao longo de todo o filme, com excepção do seu desenlace de cortar à faca merecedor de elogios. Infelizmente, o caminho para chegar a esse momento é cinzento, penoso, longo e repleto de chouriços que custam a encher, quanto mais a saborear.



Lake Bodom: Filme a concurso para o prémio de melhor longa metragem de terror europeia no Motelx, Lake Bodom é um teen slasher finlandês com elementos de crítica social a problemas actuais como o bullying tão deslocados que se torna constrangedor. Inicialmente observamos um grupo de quatro adolescentes que decidem passar a noite num lago remoto onde existiu um crime misterioso e macabro há 50 anos atrás. O momento que "algo corre mal" acontece cedo demais, seguido de um plot twist forçado e sobretudo desinteressante que precisa de utilizar um terço do total do filme para ser explicado ao espectador, de forma bacoca, moralista e constrangedora que não devia ter lugar, ainda para mais quando é o primeiro a objectificar a sua feminina personagem principal, seguindo para um terceiro acto confuso, repleto de plot holes, que se esforça para imitar, apenas à superfície, filmes como Wolf Creek. O que safa Lake Bodom da mediocridade do seu mau gosto é a excelente cinematografia que apresenta, verdadeiramente fantástica, que merecia um argumento bem melhor.




Lowlife: A forma como o realizador de Lowlife falou do seu próprio filme, a seguir à sua exibição, relevando os aspectos sociais que explora (tráfico de órgãos e seres humanos perto da fronteira com o México) ao invés da comédia negra tarantinesca que realmente observamos no écrã permite dizer que das duas uma: ou Ryan Prows leva o seu filme demasiado a sério, numa auto-avaliação que só pode existir num universo paralelo, ou então Lowlife falhou completamente os seus objectivos. Contada através de três perspectivas diferentes que convergem para um quarto segmento final, a história de lowlife fala em jeito de comédia negra de criminosos e toxicodependentes num contexto de tráfico de órgãos que apenas serve precisamente para isso: contexto. O lado "sério" de Lowlife nunca é realmente explorado, mas com a sua apresentação light e tragicómica, que relembra a aselhice de momentos como a limpeza do automóvel banhado de sangue em Pulp Fiction, Lowlife consegue ser bom entretenimento, com personagens bizarras e bom humor de situação. Infelizmente não vai além disso.

domingo, 10 de setembro de 2017

MOTELX 2017 - Dia #3: Better Watch Out (2017), The Untamed (2016), The Endless (2017), The Masque of the Red Death (1964)

O terceiro dia do MOTELX 2017 foi variado, do home invasion/exploitation de Better Watch Out, ao drama familiar com elementos de fantástico de Untamed, passando pela bela homenagem a Roger Corman na mítica sala do Tivoli com a exibição de Masque of the Red Death de 1964, o filme mais interessante do dia.

Better Watch Out: A originalidade é um conceito quase impossível no cinema de 2017. Pode parecer um lugar comum, mas ao longo de mais de 120 anos de história da sétima arte já tudo foi feito, nem que seja conceptualmente. Better Watch Out quer surpreender as regras de género pré-estabelecidas, colocando, num primeiro momento, babysitter e miúdo de 12 anos sozinhos em casa no Natal perante uma home invasion à Sozinho em Casa versão terror. Tudo expectável e agradavelmente bem feito até um realmente inesperado plot twist que transforma Better Watch Out num esquisito torture porn à Funny Games de Haneke ou, mais recentemente, Knock Knock de Eli Roth, que desafia a curiosidade do espectador com interpretações verdadeiramente bizarras. Nota-se bem que a intenção é fazer algo diferente, algo de negro/sádico num contexto idílico de renas e jingle bells, e a verdade é que funciona bastante bem. Better Watch Out é um filme de Natal fora do contexto para os meninos maus que não gostam de seguir regras.



The Untamed: Vencedor do Leão de Prata em 2016 para melhor realizador em Veneza, The Untamed é um drama familiar com elementos de fantasia que é diferente do habitual, mas que não assume interesse particular em nenhum momento, além de um moderado mistério que pouco vai além da simbologia de luxúria. Cinematograficamente irrelevante, é difícil de perceber o elogio de alguma crítica à sua realização, anónima, com um argumento irregular que deixa vazias as poucas questões que coloca. Além do seu retrato social que tem, a espaços, momentos de interesse, The Untamed tem alguma alma, mas acaba por não concretizar nenhuma das muitas ideias que vai sugerindo, sempre de forma tímida, como se temesse o comprometimento.



The Endless: Apresentado no Motelx pela sua dupla de realizadores através de vídeo, The Endless fala de dois irmãos, interpretadores pelos próprios realizadores, argumentistas, entre outras inúmeras funções onde constam nos créditos, que escaparam de um culto/comunidade quando eram jovens e decidem voltar 10 anos depois para ver se tudo era realmente como se lembravam. Em primeira instância, apesar de uma certa sensação de amadorismo, o filme está bem embalado, com uma boa trama, mas com o decorrer do tempo e introdução repentina de elementos de fantasia deitam tudo por terra, fazendo com que The Endless se aproxime mais de um episódio de uma qualquer série do Sy-fy ao invés de um filme de terror/mistério independente. The Endless quer ser muita coisa, do drama familiar ao terror, é ambicioso e com muitas ideias que infelizmente não conseguem passar eficazmente para o écrã em nenhum momento.



The Masque of the Red Death: Roger Corman veio ao Motelx como convidado de honra e apresentou na belíssima sala do Tivoli o seu filme de 1964, The Masque of the Red Death, um filme adaptado de um conto de Edgar Allan Poe em que um príncipe europeu por volta do séc. XIV, magistralmente interpretado por Vincent Price, adorador de Satanás, aterroriza os camponeses enquanto dá festas luxuosas no seu castelo, protegendo os seus ocupantes de uma peste vermelha que assola a região. Deliciosamente teatral, The Masque of the Red Death é um filme de género fantástico superior, uma reflexão influenciada pelo Sétimo Selo de Bergman sobre luxúria, desejo e filosofia pós-morte pelas acções em vida, com uma realização inspirada de Corman que utiliza uma palete de cores fortes impressionante que só se veria assim elogiada no écrã com Suspiria de Argento para contar a sua intrigante história. O conto medieval de mistério dificilmente será superior a Masque of the Red Death no cinema.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MOTELX 2017 - Dia #2: The Void (2016), Kfc (2016), El Bar (2017)

Após uma estreia algo descontextualizada, o segundo dia da 11ª Edição do MOTELX  embalou bem para a exibição de filmes interessantes no âmbito do fantástico/horror. Vimos o canadiano The Void, um call back ao body horror de Carpenter, o drama vietnamita negro e violento de Kfc e o thriller/comédia negra El Bar, de Álex de la Iglesia, um filme que teria assentado que nem uma luva para abrir as hostilidades se tivesse sido exibido no primeiro dia.

The Void: É sempre um prazer ver que ainda existem cineastas amantes do género de terror que gostam de elogiar as suas principais influências através do seu cinema, e The Void procura seguir as pegadas de Carpenter, e em particular de The Thing, com os seus practical effects artesanais em detrimento do já mais que mastigado CGI, que no horror low-budget corre sempre o risco de ser mais ridículo do que assustador. The Void começa muito bem, com as suas personagens genéricas barricadas num hospital de província com pouca ou nenhuma actividade, cercados por figuras encapuzadas assustadoras. O body horror monstruoso artesanal e o seu mistério começa a tomar muito bem conta do écrã, numa primeira meia hora optimista e entusiasmante, mas a partir daí, quando o argumento começa a desenvolver para elementos do oculto sem qualquer fascínio para o espectador, começam a descobrir-se as fragilidades e The Void torna-se um filme empapado, confuso, lento e desinteressante, com os seus momentos finais, em oposição ao seu aliciante início, a revelarem-se uma verdadeira prova de resistência. Perto do final, uma personagem pergunta "Is it over?". Sim, finalmente. 



Kfc: O quase desconhecido pela internet Kfc, filme vietnamita, entra directamente na restrita lista de filmes mais negros e perturbantes que já foram exibidos no Motelx. Apesar das suas temáticas psicologicamente pesadas, que incluem necrofilia, canibalismo ou tortura, e que caberá ao espectador apreciar como livremente entender, Kfc é um filme com uma cinematografia, realização e argumento notáveis que o colocam num patamar acima daquilo que normalmente observamos no festival. A sua estética, sempre cuidadosamente composta, é ao longo da sua bem equilibrada duração de 68 minutos algo de maravilhoso, acompanhando um argumento fragmentado muito bem construído e embrulhado que acompanha um conjunto de personagens que, fruto de causa e efeito nas suas vidas, se vêm afectados por acontecimentos macabros que são, nas palavras do realizador, um elogio ao mal, que está sempre presente mas é sempre discriminado em relação ao bem. Há mais alma e substância em cada uma destas personagens interligadas, provavelmente com menos de 15 minutos de écrã cada, do que na esmagadora maioria das produções cinematográficas de hoje. Quando observamos de onde veio e qual a sua origem, um projecto universitário vietnamita, o mérito sobe ainda mais. Kfc, uma crítica à amoralidade fast food que pauta os nossos dias nos mais pequenos detalhes, é uma pérola de cinema na programação deste ano do Motelx, um filme que cumpre tudo aquilo a que se propõe, com excelência.



El Bar: Álex de la Iglesia, nome robusto do cinema de género espanhol habituado a aliar o thriller e o fantástico à comédia negra trouxe ao Motelx provavelmente o maior destaque do dia. A premissa, já vista noutras ocasiões, é sempre interessante pelo seu mistério: numa manhã num bairro de Madrid, um grupo de estranhos fica preso dentro de um café quando dois dos seus clientes são aparentemente mortos por um sniper ao sair. Sem respostas para o motivo, numa alegoria negra ao terrorismo moderno, a imaginação dos restantes clientes comporá o resto da trama. Na sua primeira metade El Bar é verdadeiramente maravilhoso, brincando de forma ácida com os estereótipos das suas personagens e com pequenos detalhes da "cultura de café" espanhola, como as tortillas e as máquinas de jogo, com interpretações teatrais deliciosas que remetem para as actuais comédias espanholas e francesas pela sua pormenorização (a dona do café é irresistível). Há que dar mérito ao realizador pela forma como a comédia negra de mistério se vai a pouco e pouco transformando num thriller mais visceral, mais sério, mais filosófico ao escalar o rumo dos acontecimentos para uma luta desmesurada pela sobrevivência individual. O problema é que essa filosofia, a tal verdadeira "essência humana", é algo que hoje em dia já é bacoco no cinema, é algo tão básico que irá apenas surpreender os mesmos jovens que ao ver Battle Royale aos 15 anos acharam que estavam perante o filme mais profundo alguma vez filmado. El Bar, na sua segunda metade algo genérica (mais genérico que isto só um sem abrigo a citar constantemente a Bíblia), foca-se demasiado nesse drama inter-personagem, mas ao mesmo tempo consegue ser thriller eficaz, com um belo desenvolvimento de personagens e um trabalho de camera a lembrar os corredores de Alien, entre outras referências. El Bar é um bom filme que perde solidez com o tempo, mas os seus bons momentos são tão bons que fazem esquecer o rumo menos original que acaba por levar e que teria assentado que nem uma luva na sessão de abertura do Motelx.