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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

MOTELX 2018 - Críticas Dia #6: Sessão de Encerramento, Elizabeth Harvest, Brother's Nest, Exorcism of Mary Lamb

O último dia da 12ª Edição do Motelx foi porventura o mais fraco no que diz respeito à oferta que a programação deste ano apresentou, com uma escolha para filme de encerramento que foi um completo tiro ao lado face ao que é esperado pelos fãs do festival. Embora Elizabeth Harvest seja um filme criativo imageticamente interessante, não é o filme de terror crowd pleaser que tem sido exibido como encerramento ao longo dos anos. A prova é que pela primeira vez em muitos anos, e talvez desde sempre, a sessão de encerramento do Motelx não esgotou, e enquanto balanço final poder-se-á dizer que, no que a entusiasmo do público diz respeito, esta edição ficou aquém das expectativas. O São Jorge não esteve tão movimentado como em anos anteriores, talvez devido à ausência de novidades, convidados de peso e à perda da sala do Tivoli, do outro lado da Av. da Liberdade que tinha por hábito estar inserida na programação. Outro factor foi o facto da sessão de abertura com o aguardado The Nun ter sido limitada a convites e passatempos, o que enfureceu uma boa franja de espectadores fiéis ao Motelx. Por outro lado, as escolhas exibidas este ano apresentaram uma qualidade em média superior face a anos anteriores. Apesar de não se ter visto nenhuma obra-prima (Hagazussa foi o único filme digno de 4 estrelas que vimos), também não se pode dizer que tenha passado por esta edição do festival algum filme verdadeiramente medíocre. Houve ofertas muito sólidas como Piercing, Mandy, Gonjiam ou Upgrade, entre outras belas ofertas. Na sessão de encerramento, antes da exibição de Elizabeth Harvest, Hagazussa: Heaten's Curse, de Lukas Feigelfeld, foi designado vencedor do concurso para melhor longa metragem de terror europeia. A Estranha Casa na Bruma, de Guilherme Daniel, foi a melhor curta de terror portuguesa a concurso. Já o novo prémio do público foi atribuído à meta comédia de horror One Cut of the Dead, filme do japonês Shin'ichirô Ueda. No último dia vimos ainda o agradável Brother's Nest e Exorcism of Mary Lamb, um dos piores filmes nesta edição do Motelx.

Elizabeth Harvest: A sessão de encerramento da 12ª Edição do Motelx exibiu Elizabeth Harvest, um thriller com apontamentos sci-fi e de horror aprimorado esteticamente e original em termos de estrutura narrativa, mas que acaba por se confundir a si mesmo à medida que vai acrescentando camadas à sua já por si complexa estrutura. Elizabeth, protagonizada pela bela Abbey Lee, é recém casada com um brilhante cientista milionário que tem algo a esconder. O filme rapidamente explica ao espectador que este não será um thriller convencional e muito menos um filme de terror, mas antes mais uma daquelas auto apelidadas experiências sensoriais e contemplativas que a nova corrente colorida neo-noir nos tem trazido, com alguma filosofia, romance e bio-ética à mistura. Não é que não seja interessante e até inteligentemente construído durante algum tempo, mas a rigidez com que o é, limitando os seus actores a meros executores de tarefas, e enamorando-se com a pretensa inteligência do seu argumento, esgota qualquer entusiasmo que um filme rodeado de mistério deveria ter. Ao procurar discutir diversas temáticas por alguém rotuladas como delicadas, desde a bio-ética ao amor proibido, passando passando pela libertação feminista, o realizador Sebastian Gutierrez parece perder-se em tantas mensagens. O que sobre é um cocktail vistoso que sabe bem, mas que vendo a receita não passa de água com açúcar.



Brother's Nest: Vindo da Austrália, Brother's Nest é um original thriller familiar que coloca dois irmãos não propriamente jovens em preparativos para assassinar o seu padrasto por causa da herança. O filme tem uma bela premissa de drama familiar, bem misturado com uma pitada de humor negro saboroso, mas o seu unidimensionalismo impede-o de fazer algo mais que discutir com algum jeito, mas muito arrastamento, uma interessante temática moral. O filme constrói-se com um entretenimento de belo efeito para deitar tudo a perder no seu último terço, com uma conclusão no mínimo deslocada perante o argumento que nos foi apresentado até então e um deitar para o lixo de uma complexa construção psicológica de personagens que afinal não eram mais que fachada, vendo-se ambas reduzidas a um estereótipo de bem contra mal no final. Brother's Nest acaba por ser, com muita pena, um exercício fílmico inútil.



Exorcism of Mary Lamb: Desengane-se aquele que pensar que Exorcism of Mary Lamb tem algo que ver com aquilo que o seu título propõe. O filme do japonês Yasumasa Konno não é um filme de terror. Não existe nenhuma personagem chamada Mary Lamb, e tão pouco existe qualquer exorcismo. Este é, na verdade, um thriller policial psicológico cheio de vaidades artísticas inúteis e um argumento pobre, confuso e com mais buracos que a bola de futebol que usávamos em todos os intervalos da escola. Este Exorcism of Mary Lamb (nome aleatório, podia chamar-se batatas com feijão verde), quer ser Insomnia, Se7en, Shutter Island, tudo ao mesmo tempo, num filme que se arrasta até à exaustão sem qualquer linha narrativa minimamente lógica e com um twist final risível que nem sequer é possível perante as leis do próprio filme. Este amadorismo argumentativo, ou inabilidade de o transpor para a tela, procura refugiar-se numa realização observadora e atenta às técnicas utilizadas em filmes do género mais recentes no Japão e na Coreia do Sul, mas é um exercício de esforço inglório, que ainda assim o salva do zero absoluto.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

MOTELX 2018 - Críticas Dia #5: Piercing, Ghost Stories, Veronica

Ao quinto dia da 12ª Edição do Motelx, sábado, vimos um dos melhores filmes presentes na programação: Piercing, de Nicolas Pesce, um fantástico thriller sexual esteticamente aprimorado. Veronica, mais recente filme do espanhol Paco Plaza (Rec) entregou uma das mais belas sessões de terror numa lotação esgotada com a presença do realizador e da actriz principal. Já Ghost Stories, um dos filmes mais antecipados do festival, protagonizado por Martin Freeman e Andy Nyman, foi uma tremenda desilusão.

Piercing: O primeiro filme de uma sessão dupla que começou muito atrasada, rondava a 1h da manhã, foi uma bela surpresa. Nicolas Pesce, realizador do desconcertante The Eyes of My Mother, protagonizado pela portuguesa Kika Magalhães, regressa ao cinema provocatório com este Piercing, inspirado no mesmo livro que inspirou o filme de culto Audition de Takashi Miike. Christopher Abbot contracena com Mia Wasikowska nas duas melhores interpretações desta edição do Motelx. Ele, um homem de família que planeia matar uma aleatória prostituta com um picador de gelo. Ela, uma prostituta que é menos inocente do que aparenta. Com uma química astuta, Abbot e Wasikowska complementam-se numa noite esteticamente delirante nas mãos de uma realização deliciosamente criativa de Pesce. Na verdade, o pequeno Mundo hermético de quarto de hotel de Piercing parece ter vida própria, englobando o espectador como voyeur da doentia fantasia do protagonista que recebe mais do que aquilo que planeava. Um design sonoro estimulante e uma banda sonora onírica e contemplativa, com um filtro de cores que não se rende ao facilitismo da corrente neo-noir recente, Pesce criou mais uma brilhante guloseima cinematográfica que apenas se fragiliza no seu argumento. Com efeito, conduzindo habilmente o espectador pela mente retorcida do duo de protagonistas, Pesce constrói um argumento labiríntico que aparenta não ter saída. Perante essa parede, Pesce decide terminar o filme ao invés de o elevar a um patamar ainda mais provocatório e criativo à semelhança do que Miike fez com Audition. Má decisão. Abbot e Wasikowska ainda tinham muito para dar e o espectador, o pretenso observador escondido na sala de cinema, estava interessado em ver.




Veronica: O realizador Paco Plaza e a actriz principal Sandra Escacena vieram ao Motelx para apresentar Veronica, um filme de terror sobrenatural confortável e tradicional, que apesar de não ter nada de novo a apresentar consegue subir alguns pontos graças a uma realização tecnicamente irrepreensível, uma interpretação cheia de personalidade de Sandra Escacena e 3 encantadoras interpretações infantis de duas meninas e um menino que interpretam os irmãos da protagonista, que os deve criar e proteger devido à sua mãe viúva trabalhar até tarde no seu bar/restaurante. Veronica oferece um entretenimento sólido e assustador para os fãs do género, evita os clichés e os jump scares, e preocupa-se mais em contar a história das suas personagens e em construir uma atmosfera de terror eficaz, embora conscientemente pouco credível. Para aquilo que pretende, Veronica cumpre com surpreendente eficácia todos os objectivos e afirma-se como uma das primeiras opções para quando alguém pede uma sugestão de "filme de terror giro para ver em casa".




Ghost Stories: Era um dos filmes mais aguardados desta edição do Motelx. Alguns apelidavam-no de melhor filme de terror britânico dos últimos anos, mas a verdade é que Ghost Stories é uma tremenda desilusão. A sua personagem principal, interpretada pelo próprio realizador Andy Nyman, dedica-se a desmistificar histórias sobrenaturais aparentemente inexplicáveis, apresentando ao espectador 3 episódios de terror, um após o outro, ao estilo antologia. Apesar da linha narrativa que vai ligando as 3 histórias, a "moral da história" aplicada ao protagonista do filme é tão desinteressante como desnecessária. Na verdade parece estar a mais, uma vez que qualquer um dos 3 mini episódios de horror é mais interessante que a história do protagonista os liga. Interessante será, no entanto, talvez um exagero, uma vez os pequenos contos expostos, quais curtas metragens juntas no mesmo título, não fogem ao básico dos clichés de género, apostando no jump scare como arma principal perante a incapacidade de em tão pouco tempo e perante tão pouco engenho construir personagens ou atmosferas credíveis. Ghost Stories é aquilo que se pode apelidar de salganhada ensossa que permitirá aos seus espectadores dar alguns (poucos) saltinhos na cadeira quando o volume fica mais alto, para logo a seguir soltar um inevitável riso. Uma enorme perda de tempo...




domingo, 9 de setembro de 2018

MOTELX 2018 - Críticas Dia #4: Upgrade (2018), Gonjiam: Haunted Asylum (2018), The Ranger (2018), Luz (2018)

Sexta-feira, dia 7 de Setembro 2018, teve lugar o 4º dia da 12ª edição do Motelx, mais um belíssimo dia para os amantes do género que trouxe o impulsivo Upgrade de Leigh Whannell, convidado de honra do festival, para nos levar numa montanha russa de acção futurista e que contou com James Franco como espectador anónimo na sala. Foi ainda o dia da primeira sessão dupla desta edição, provavelmente uma das mais interessantes da história do festival, com o teen slasher The Ranger e o aterrador Gonjiam: Haunted Asylum. Foi ainda exibido Luz, um filme conceito que não conseguiu corresponder às expectativas.

Upgrade: Foi para filmes como Upgrade serem feitos que a série B se perpetuou no tempo. Não é que o mais recente filme de Leigh Whannell o seja conceptualmente, mas o espírito descomprometido e o amoroso exercício de género que consegue produzir, cheio de criatividade no recheio que compõe o seu pequeno Mundo futurista, tornam-no uma jóia na programação desta edição do Motelx e num possível filme de culto de nicho, com mérito próprio, a lembrar películas como The Guest. Despojado de pretensiosimo, Whannell consegue fazer um saboroso cocktail de sci-fi, terror e acção, e não fosse o seu descomprometimento o resultado final poderia ter sido desastroso. Pelo contrário, Upgrade habilmente consegue equilibrar os seus subgéneros e ideias, e Logan Marshall-Green, estrela da obra-prima do suspense Invitation, demonstra que pode atingir patamares maiores no cinema comercial. Ainda que por vezes o filme pareça algo desorientado e apressado, o entretenimento que oferece é inegável. Upgrade não pretende mais que isso.



Gonjiam: Haunted Asylum: Escolha ideal para fechar o dia, exibido às 2h da manhã, Gonjiam é um dos exemplares do melhor terror, em sentido estrito, que já passou pelo Motelx em todas as suas edições. Um found-footage sul coreano, Gonjiam coloca um grupo de voluntários num programa online que procura fantasmas em lugares supostamente assombrados, enquanto transmite em directo para milhares de espectadores com as suas câmaras e go-pros. No caso, o cenário é um asilo abandonado no interior do país. Desprovido de violência e de jump scares que existem, mas estão longe de ser baratos, Gonjiam constrói uma atmosfera genuinamente aterradora e realista, realismo esse que se arrasta com sucesso para as suas personagens, numa espécie de Blair Witch aperfeiçoado. A cinematografia, a localização e a ausência de banda sonora ajudam, e no fundo é isso que se procura no género de terror puro que não procura brincar com outros conceitos que não sejam o de colocar o espectador com deliciosos calafrios, num dos filmes de entretenimento de horror mais bem polidos dos últimos anos para ver com os amigos à noite. 



The Ranger: Mais uma homenagem aos teen slashers dos anos 80, The Ranger foi um boa escolha para abrir a sessão dupla à meia-noite antes da exibição de Gonjiam. Quando um grupo de punks adolescentes se refugia na casa de montanha de uma das protagonistas, um ranger do parque nacional demonstra não é o agente da autoridade que aparenta. Apesar de ser um filme algo insípido, The Ranger consegue brincar consigo próprio, caricaturando o género teen-slasher com humor negro e alguns clichés conscientemente aplicados que disfarçam algum do amadorismo presente na realização. O facto do Ranger assassino nunca ter enganado ninguém, faz com que o filme nunca seja realmente levado a sério, o que lhe dá toda uma dimensão cómica e de entretenimento que nunca se torna cansativa. A sua curta duração, 80 minutos, ajuda a que tudo corra bem. No entanto, apesar de bem disposto, The Ranger não faz nada mais que isto.



Luz: Um dos filmes a concorrer para melhor longa-metragem de terror europeia, Luz prometia muito com o seu conceito, mas a verdade é que nunca passa disso mesmo: um filme-conceito de uma hora, esticado de forma desnecessária naquilo que teria funcionado muito melhor como uma curta-metragem. O hábil realizador Tilman Singer constrói um meta filme no qual uma taxista que sofreu um acidente, sob efeito de hipnose, procura esclarecer a investigação sobre o sucedido. O design sonoro do filme é impressionante, e a forma como o que se passou no táxi de Luz é reproduzido no salão onde decorre o inquérito sob hipnose é hábil e criativa, mas além desse conceito, Luz faz muito pouco. Abrindo e encerrando com o mesmo longo plano fixo, o tempo "útil" de filme não será superior a cerca de 45 minutos, o que acaba por expor as suas limitações. Luz é um esforço técnico admirável nos primeiros 10 minutos, mas a ausência de desenvolvimento de personagem e interesse narrativo acabam por deitar tudo a perder.




sábado, 8 de setembro de 2018

MOTELX 2018 - Críticas Dia #3: One Cut of the Dead (2017), Hagazussa: A Heaten's Curse (2017), Cutterhead (2018), Pledge (2018)

O terceiro dia do Motelx 2018 teve ofertas variadas e originais, confirmando-se como mais um dia de celebração do género de horror. O japonês One Cut of the Dead apresenta uma invulgar comédia sobre uma comédia de terror, ao mesmo tempo que Hagazussa: A Heaten's Curse é um dos filmes mais perturbadores e artisticamente meritórios desta edição. Cutterhead trouxe-nos a claustrofobia, enquanto o adolescente The Pledge ganhou espaço na sessão da meia-noite. Eis o que achámos:

Hagazussa: A Heaten's Curse: Hagazussa, um dos filmes em competição para melhor longa metragem de terror europeia, dificilmente será batido nesta edição do festival, não só entre os candidatos, mas entre a programação em geral. Esta é a história do dia a dia de uma jovem que vive isolada da sua comunidade no séc. XV, após a morte da sua mãe, que os aldeões acusavam de ser uma bruxa. Na realidade a descrição narrativa pouco importa na experiência sensorial fora de série perturbante e atordoante que é Hagazussa. O seu conceito não é o de contar uma história mas sim o de transpor o espectador para a rotina desta mulher isolada, herege, comparada à sua mãe, e que se sugere conviver com o diabo. Observamos a sua rotina, a natureza que a rodeia no campo, a ritmo lento, sempre atmosférico, vertiginoso, construindo o horror camada sobre camada até dar a machadada final no espectador. Hagazussa não é um filme para todos os espectadores nem para todos os estômagos. Lukas Feigelfeld, o realizador austríaco, consegue um trabalho de excepção na cinematografia e banda sonora do filme, constantemente compenetrando o espectador no seu cenário paisagístico bucólico e fantasmagórico, com uma pontual palete de cores que nos transporta à alucinação e à paranóia deste modo de vida. No seu clímax, o ritmo lento caminha para algo de doentio, provocando habilmente o espectador ao ponto de abandonar a sala. Como se disse atrás, Hagazussa não é para todos os estômagos, mas é uma das mais brilhantes experiências sensoriais de género dos anos recentes. Dificilmente o Motelx exibirá filme tão marcante nesta edição.




One Cut of the Dead: Uma das mais interessantes e originais propostas desta edição do Motelx, One Cut of the Dead caracteriza-se pela sua estrutura invulgar e elogio ao "faça você mesmo" que caracterizou algumas produções historicamente falhadas da indústria cinematográfica, piscando o olho a cineastas como Ed Wood, mas ao mesmo tempo admirando George Romero ou Wes Anderson. Abrindo com um único plano sequência de 37 minutos, One Cut of the Dead é a desconstrução (aqui sim, a vã palavra assenta que nem uma luva) do amor ao cinema de terror, da vontade de o produzir, do tapar atabalhoado dos problemas das produções amadoras, caracterizando-as com mestria e amor, numa comédia deliciosa. Há poucos filmes que sejam tão pouco pretensiosos como este elogio ao terror. One Cut of the Dead é um dos filmes mais sólidos que passou por esta edição do Motelx.




Cutterhead: Produção dinamarquesa, Cutterhead insere no horror realista claustrofóbico ao colocar uma repórter e dois mecânicos de escavações presos numa escavação de grande orçamento de projecto europeu. A narrativa é a esperada: conflitos morais, desespero de sobrevivência e uma bem sucedida claustrofobia que nunca abandona os protagonista. No entanto, o fechar de portas a algum facilitismo comercial que tal conceito podia gerar e o ultra realismo reproduzido dá a Cutterhead vantagem, tornando um belíssimo exemplar de microgénero que consegue reproduzir com fidelidade a provável reacção dos seus espectador perante tal situação. Aqui não existem heróis confessos e a fragilidade psíquica das personagens será explorada com mestria. Pena que seja apenas isso, um filme conceito ultra realista que se desenrola na tela sem sobressaltos ou criatividade.





Pledge: A sessão de meia-noite da sala 3 do Motelx por excelência, Pledge é um filme de terror de baixo orçamento a roçar o amadorismo, mas empoderado por uma enorme dose de boa vontade, colocando 3 apelidados nerds numa tentativa de ingressar numa qualquer fraternidade universitária norte-americana. Naturalmente, nas praxes, algo corre mal e os 3 protagonistas terão que lutar pela sobrevivência. Pledge é um filme cheio de boas intenções e vontade de ter criatividade narrativa, técnica, e até moral (a mensagem anti praxe é coxa e indecisa entre a moralidade e o entretenimento), mas é impossível dissociar-se o produto final da carta de amor que os envolvidos na sua produção querem enviar ao género de horror. Raramente credível pelo seu amadorismo, e levando-se por vezes demasiado a sério, exagerando nos twists, Pledge fica pela intenção e pelo esforço, mas é difícil levá-lo a sério. Demasiadas cenas são cópias de outros filmes (a tortura de rato dentro de balde de metal quente é cópia chapada de Fast & Furious), e notam-se bem as influências dos guionistas. Será, no entanto, um belo momento de entretenimento Motelx com os amigos.




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

MOTELX 2018 - Críticas Dia #2: mon mon mon Monsters (2017), The Tokoloshe (2018), Unsane (2018), Cam (2018), Mandy (2018)

Após uma abertura que deixou algo a desejar com The Nun, o segundo dia do Motelx 2018 foi surpreendentemente interessante, com 5 ofertas variadas de grande qualidade, duas delas bem sonantes. Não houve nenhum mau filme, mas também não se pode dizer que Mandy tenha sido a obra-prima que muitos apregoam. Cam surpreendeu pela positiva, Unsane de Soderbergh é uma bela experiência, e Tokoloshe por culpa própria não consegue ser o grande filme do dia.

mon mon mon Monsters: Filme taiwanês de belo efeito, mon mon mon Monsters consegue adjectivar, com muitas hipérboles e metáforas, os fantasmas de alguma cultura violenta juvenil, nomeadamente o bullying, os abusos perante idosos ou a pressão social, que muitas vezes parte do próprio corpo docente nas escolas. Aqui, uma traumatizada vítima de bullying é forçada a cumprir castigo com os seus bullies ajudando idosos num prédio degradado. É aí que encontrarão duas criaturas demoníacas, capturando uma delas e colocando-a num cativeiro escondido para satisfazer todos os seus desejos de tortura e abuso de dignidade, à medida que a outra criatura a tenta encontrar, não parando perante nada. mon mon mon Monsters consegue repulsar o espectador perante a desvalorização da vida humana e... desumana, questionando, ainda que com muito estilo e exagero digno de algum cinema asiático, quem serão afinal os verdadeiros monstros. Pena que à medida que caminha para o seu final, o filme se perca um pouco no seu labirinto moral, terminando com um epílogo algo desconexo que quase deita a perder aquilo que de bom construiu até então.



The Tokoloshe: Raro exemplo de cinema africano de terror que chega a uma sala portuguesa, Tokoloshe várias vezes morde os calcanhares daquilo que seria um grande filme. Busi é uma jovem que se vê forçada a abandonar a província Sul Africana para trabalhar na metrópole de Joanesburgo enquanto empregada de limpeza num hospital degradado para assim salvar a sua irmã mais nova que ficou para trás. Os fantasmas de abusos sofridos ao longo da sua infância são sugeridos nos pesadelos da protagonista à medida que os vê ressuscitar perante a entidade vil que é o seu patrão sem escrúpulos. Quando se apercebe de que existem histórias de um demónio que assombra as crianças no hospital, Busi tem dificuldade em separar os seus demónios da realidade. Com temáticas bem actuais como os abusos sexuais, a desigualdade de género e os traumas culturais, mas longe de querer alimentar lições moralistas à boca do espectador com uma colher, Tokoloshe faz um trabalho quase brilhante, com um argumento sólido e uma cinematografia deliciosa, sempre com uma atmosfera misteriosa e perturbadora que agarra o espectador. A parte mais interessante, mas ao mesmo tempo mais frágil do filme, é o seu último terço, desenrolado no desolador cenário campestre africano da sua infância, no qual Busi terá de enfrentar os seus fantasmas familiares.



Unsane: Embora pragmático, Soderbergh é um mais inconformados realizadores norte-americanos do ponto de vista artístico actualmente. Numa altura em que ponderava parar de filmar, Soderbergh surge com este Unsane, um filme filmado exclusivamente com telemóvel que se assume série B orgulhosa através de uma história claustrofóbica e misteriosa, cuja estrutura invulgar impede o raciocínio do espectador de obter respostas às intrigantes questões que desfilam pelo écrã, quando uma energética Claire Foy se vê presa num instituto psiquiátrico contra a sua vontade, onde supostamente estará também um seu stalker. Com uma atmosfera heterogénea, mas surpreendentemente equilibrada, Unsane vai do humor negro ao thriller psicológico em poucos segundos. Com uma realização surpreendentemente criativa (este é talvez o filme experiência filmado a telemóvel mais interessante até hoje), Unsane é um objecto fascinante, mas nunca consegue subir o derradeiro degrau que elevaria esta belíssima experiência para algo mais, talvez por nunca concretizar os demónios da paranóia sexual que tão astutamente soube trazer à baila.



Cam: Certamente um dos filmes mais originais a passar neste Motelx, Cam entra no mundo das camgirls que se exibem em chat rooms online em directo a troco de dinheiro dos seus visualizadores. Madeline Brewer faz um bom papel como modelo que subitamente vê a sua identidade misteriosamente roubada online e duplicada numa chat room de uma forma asfixiantemente misteriosa. Procurando resolver o mistério, Cam joga com as paranóias, medos e incertezas de um desconhecido mundo online, e o roubo de identidade num meio tão estranho e potencialmente perigoso, mas com uns bastidores rotineiros e estranhamente familiares, desmistificando ao mesmo tempo o mundo familiar e profissional destas modelos. Ainda que não se consiga desligar de uma certa atmosfera cool juvenil, Cam é um thriller belíssimo e original que pisca o olho ao revivalismo neo noir que tem aparecido nos últimos anos no cinema norte-americano.



Mandy: Era o prato forte deste segundo dia de Motelx. Mandy, a trip alucinatória movida a lsd de Panos Cosmatos, protagonizada por Nicolas Cage, não é exactamente aquilo que aparenta, mas é precisamente nessa indecisão quanto à forma que acaba por perder a sua força. Aquilo que aparentava ser um revenge movie ao estilo grindhouse, com Nic Cage a regressar ao território onde o seu carisma melhor dá cartas, é afinal uma obra cinematográfica de experimentalismo formal e estético, relembrando, pelas piores razões, detritos abjectos como Spring Breakers ou algum do pior cinema de Nicolas Winding Refn. Cage vive com a sua companheira, a titular Mandy, numa casa algures nas montanhas do interior dos Estados Unidos, quando um culto religioso decide perturbar a sua idílica vida romântica, soltando a fúria do protagonista. O problema é que na tela o desenvolvimento da trama não funciona exactamente assim, com um ritmo lento e pantanoso, coberto de filtros de cor neo noir, dando mais protagonismo ao culto vilão e à irritante Mandy que propriamente à acção e loucura de Cage, cujo tempo de écrã é na verdade reduzido. É impossível fugir ao pensamento de que Mandy é, afinal de contas, um filme artisticamente pretensioso que não sabe o que fazer com aquele que é, de longe, o seu maior trunfo, e pior, conscientemente coloca-o em segundo plano, preferindo os devaneios estéticos e diálogos filosófico-balofos do pastor do culto à vingança propriamente dita que o filme teima em insinuar e prometer, mas que acaba por entregar de forma insuficiente e titubeante. Por outro lado é inegável o mérito estético que o filme apresenta. A sua criatividade, embora gratuita e inconsequente, compõe belos planos imagéticos. É também inegável que das poucas vezes que temos o prazer de ver Nicolas Cage a trabalhar o veterano actor protagoniza cenas poderosas com uma maravilhosa entrega. Fica um sabor agridoce. Dependerá da disposição do espectador e do seu gosto pessoal, mas Mandy enquanto conjunto será objectivamente um filme desequilibrado e com um rumo incerto que, isoladamente, tem o mérito de apresentar sequências visuais e de acção com o potencial de atingir o culto cinematográfico.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

The Nun (2018)


A Freira Conspurcadora

Um dos mais aguardados filmes de terror do ano, não fosse ele um spinoff de The Conjuring, uma das sagas de terror americano mais rentáveis de sempre, teve honras de abertura do festival Motelx em 2018, com polémica à mistura, numa sessão apenas acessível mediante convite ou passatempo. Não se pode dizer que os fãs do festival que não conseguiram estar presentes tenham perdido algo de relevante além da sempre agradável e bem organizada apresentação deste excelente festival, pois The Nun é, no limite, um filme de terror mediocre, que acentua a sua mediocridade com base em todo o orçamento que poderia ter feito dele um filme no mínimo decente mas que parece contentar-se com o mais básico dos básicos. O sentimento é de pena perante o realizador Corin Hardy, esforçado aprendiz e amante de horror que em 2015 se havia estreado nas longas metragens com The Hallow, um filme de orçamento bem inferior que, apesar de frágil, apresentou muito mais criatividade, quer narrativa, quer técnica, que esta freira maldita. Em The Nun a linguagem do horror americano mais básico, de maldição e mistério, já explorada até à exaustão, despe-se de quaisquer adornos vistosos e torna-se apenas o esqueleto mais básico da sua fórmula, que nem vistosa consegue ser. O jogo entre o trio de protagonistas (padre, aprendiz de freira e... carteiro?), interpretados por 3 fracos actores, e a freira maldita que dá título ao filme é o das escondidas: a freira esconde-se, passeia pelos corredores, surge atrás por trás, surge no espelho, esconde-se outra vez, tudo isto à medida que os 3 “heróis”, enviados do Vaticano, a tentam seguir perguntando “Olá? Olá? Está aí alguém?”. Detestamos o facilitismo da aplicação da palavra “cliché”, mas The Nun é um elogio a essa palavra e um maravilhoso exemplo de negação de criatividade, de preenchimento de lugares comuns, enfim, um maravilhoso exemplo de preguiça. Tudo é tão vazio, tão simplório, que se torna exasperante. The Nun começa alegremente, com algum comic relief, perpetuado nas cenas pretensamente mais dramáticas do filme, o que borra por completo esta pintura que se quer horrífica e misteriosa e que se apresenta com cenário medieval, mas que afinal se passa na década de 50 do séc. XX e que de horrífico e misterioso não tem nada. Ao dissolver-se essa alegria introdutória todo o novelo narrativo se torna pífio, confuso, ilógico, e pior: desinteressante e inconsequente, digno de tv-movie baratucho, que além do nome chamativo nada mais tem a apresentar. Personagem tão intrigante e aterradora a deste Valak, o Conspurcador, a Freira, peça fulcral do belíssimo Conjuring 2, a ser aqui reduzida a truques baratos de jump scare, volume no máximo, e jogo das escondidas e do quarto escuro. No fim, quando finalmente aparece, a brilhantemente maquilhada actriz Bonnie Aarons, a freira, é rendida na tela por um ridículo CGI que ninguém pediu. O filme termina, finalmente, ele próprio ansioso para terminar e encerrar mais um brilhante golpe de marketing. Mais um péssimo spin-off realizado depois de Annabelle, mais dinheiro em caixa. “Venha o próximo Conjuring”, dizemos com esperança divina...

Porque é bom: A personagem da freira Valak, o Conspurcador, tem potencial icónico

Porque é mau: Total desorientação narrativa e técnica; interpretações fracas; estrutura básica de horror mistério norte-americano, reduzida ao seu estado mais básico e preguiçoso; um desfile de clichés inconsequente e desinteressante; um filme que está com pressa de acabar e fazer dinheiro em caixa e que envergonha o nome de The Conjuring.