segunda-feira, 30 de julho de 2018

Crítica: First Reformed - The Fading Cam



O Pastor que descobriu o Mundo Moderno


Quando se fala de Paul Schrader é inevitável a referência a Taxi Driver e Raging Bull, cujos argumentos escreveu para Scorsese realizar aquelas que são, para muitos, as melhores obras do cineasta da Nova Hollywood. Ao observar a palpável espiral descendente do pastor de igreja Ethan Hawke à medida que vai interiorizando o Mundo que o rodeia, o paralelismo com o veterano de guerra Travis Bickle, taxista em estado de permanente solidão, absorvedor inconformado do sujo, precisamente, Mundo que o rodeava nos anos 70, torna-se numa presença espiritual, uma de várias, que norteia este First Reformed, filme que se pode rotular, sem pudores ou ansiedades, com o título de melhor filme da carreira de Schrader na realização. Não tapando o sol com a peneira, sempre se dirá que nesse campo a carreira do veterano Schrader está longe de ser luminosa. Dir-se-ia mesmo que atrás da camera esse percurso tem roçado a mediocridade, com um certo recente cinema trash de mau gosto que tem sido, a par de outras, uma das razões pelo descrédito de Nicolas Cage enquanto actor nos anos recentes. Provavelmente desde 1997, com Affliction, que Schrader não filmava algo pelo menos vagamente interessante (First Reformed é já a 21º longa metragem da sua carreira), e é curioso ver que, tal como o padre aqui interpretado por Ethan Hawke, parece que Schrader teve finalmente o seu momento de despertar, como se estivesse adormecido ao longo de décadas. E que forma de despertar! Não se coibindo de dar campo de expansão às principais influências de First Reformed, e observamos a olho nú à partida um tal de Ingmar Bergman e uma das suas jóias, Winter Light (1963), Schrader assenta nas bases dos seus mestres para filmar um debate interior de personagem moderno que raramente se vê nos dias de hoje, indo buscar temas tão íntimos e abstractos como a religião e a culpa, e por outro lado temas tão contemporâneos e científico-filosóficos como o aquecimento global. É ao cruzar estes Mundos, o da teologia moderna com as problemáticas científicas que raramente chegam à consciência e percepção de determinadas populações, numa tela de remorso e debate interior de personagem, que First Reformed se torna num objecto fílmico de excelência, refrescante na sua apresentação datada, nos seus diálogos ausentes de acção física.


Além da alusão Bergmaniana, Schrader invoca ainda os seus três "heróis", os três mestres sobre os quais se apoiou para escrever Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson e Dreyer, livro editado em 1972, tinha Paul Schrader apenas 26 anos, e que se mantém até hoje como um dos essenciais para o mundo do Cinema. Em first reformed observamos uma tela em 4:3, evocando esse enquadramento antigo, pré-anos 70, como filmavam os seus mestres. Suporte para os cenários rígidos e simétricos n cinema do mestre japonês Ozu, transposto para a tela de First Reformed pelo cinematógrafo Alexander Dynan, esse enquadramento permite encerrar nos seus pensamentos autodestrutivos o pastor Toller, para muitos a melhor interpretação até ao momento da carreira Ethan Hawke, mas igualmente libertá-lo quando o coloca frente a frente, simetricamente lá está, com a grávida e sozinha Amanda Seyfried, membro da sua congregação, dizendo-lhe que adorava ir visitá-la a Buffalo, no Norte do Estado de Nova Iorque, e conhecer o seu filho, ou olhando o companheiro de Seyfried nos olhos, questionando a destruição ecológica que o Homem está a fazer à criação de Deus. Será moralmente correcto trazer à Terra uma criança que viverá num Mundo poluído e devastado pela fúria da indústria humana, questiona-se Hawke, enquanto escrevinha no seu diário e se debate com uma misteriosa dor de estômago, invocando outro dos seus mestres, Bresson, e o seu Diary of a Country Priest (1951). Inesperadamente a dada altura, Schrader chama igualmente o cinema transcendental de Carl T. Dreyer, particularmente Ordet (1955), para um dos momentos mais enigmáticos do filme e um dos finais mais provocantes e desconcertantes do últimos anos. Sem dúvida First Reformed é obra maior que terá espaço próprio na história do cinema, no entanto a suas características mais cerebais e autoconscientes retiram-lhe alguma da visceralidade que podia atingir. First Reformed não se fica apenas pelo esboço de ideias abstractas e contemplativas da natureza humana, como fazia Bergman, deixando o espectador em suspenso nos seus pensamentos durante e após o visionamento dos seus filmes. Aqui, Schrader concretiza essas ideias em acções das suas personagens, dá-lhes palpabilidade, como faz ao introduzir no seu texto a promiscuidade entre as grandes indústrias, a política e o aquecimento global e a destruição dos ecossistemas. É nessa variedade de tópicos, enumerados, que procuramos, por vezes sem sucesso, ver reflectido o estado de alma do pastor de Ethan Hawke. Vemo-lo desintegrar-se, é certo, sacrificar-se por nós como Jesus havia feito há 2 mil anos, mas parece que falta alguma específica peça de puzzle, algo que complete o reverendo Toller para que possamos completar na perfeição a grande cruzada  que é a filosofia de First Reformed, além da soberba carta de amor ao cinema aos grandes mestres de Schrader que sem dúvida ficou entregue.

Porque é bom: Brilhante carta de amor ao cinema de Bergman, Dreyer, Bresson e Ozu; apresenta ideias próprias raramente tratadas em cinema, como o confronto entre a fé, o ambiente e os interesses industriais; belíssimo drama interior de personagem do argumentista de Taxi Driver; uma das melhores interpretações da carreira de Ethan Hawke; um portento estético a nível de cinematografia e planos; realização transcendental, como Schrader havia descrito no seu livro de 1972

Porque é mau: O excesso de autoconsciência e premeditação no lançamento de temáticas fracturantes por vezes não se adequa ao drama interior do pastor de igreja interpretado por Ethan Hawke, a quem, a dado momento, parece faltar determinada peça de puzzle na espiral psicológica da sua personagem.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Jurassic World: Fallen Kingdom (2018)


Os Dinossauros Digitais da Bio-Ética

J. A. Bayona, o catalão que em 2007 assinou o filme de terror de belo efeito El Orfanato, foi o escolhido para dirigir esta sequela do reboot do franchise assinado por Spielberg, Jurassic Park. Não vale a pena ser demasiado duro com Jurassic World: Fallen Kingdom. Afinal de contas o seu propósito é bem conhecido: ser filme de entretenimento de Verão, um blockbuster em estado de graça que consegue ser ainda mais musculado e inconsequente que qualquer um dos seus 4 antecessores. Apesar de a espaços parecer uma manta de retalhos esburacada, com uma crise de identidade incapaz de decidir qual o caminho a tomar e com muitos plot holes que o enredo não consegue disfarçar, Fallen Kingdom consegue por vezes apresentar algumas cenas dignas de nota, dignas de um cérebro cinéfilo pensante que afinal de contas até tem algumas ideias (já lá iremos no final). Fallen Kingdom esforça-se para agradar os fãs, tanto do original como da sequela Jurassic World, com inúmeros efeitos de nostalgia, referências e recriações mais ou menos directas de cenas icónicas. Veja-se, por exemplo, a debandada de dinossauros que fogem do vulcão, lado a lado com os nossos "heróis", tal como haviam feito no filme original (mas aí o perigo era um t-rex); o fechar desesperado da menina Maisie de um armário enquanto o híbrido indoraptor corre na sua direcção como Lex havia feito no original na mítica cena da cozinha com os velociraptors; ou toda a artilharia pesada percorrendo a ilha, qual exército de mercenários em The Lost World. Por momento chegamos a acreditar que Sam Neill fará uma aparição. Este sentimento de nostalgia reciclado sequela após sequela e um enredo apressado, que se perde entre preocupações morais e ecológicas e buracos narrativos, fazem com que seja impossível escapar ao desinteresse do sentimento copy/paste que tem manchado a indústria do cinema norte-americano comercial mais feroz. Bryce Dallas Howard e Chris Pratt têm alguma química, sim, mas estão muito longe do carisma e desenvolvimento de personagem que outras duplas como Sam Neill e Laura Dern ou Jeff Goldblum e Julianne Moore tiveram em filmes anteriores. Chris Pratt, a determinado momento, reduz-se a um comic relief que combate mercenários corpo a corpo, distribuindo socos como se de um John McClane se tratasse. 


Os efeitos especiais gerados a computador, que transpõe para a tela todos os dinossauros, são também inexplicavelmente irrealistas, dir-se-ia mesmo inferiores aos efeitos utilizados no filme original. É certo que em 1993 foram também usados efeitos especiais práticos, nomeadamente através da construção de modelos e robôs que davam uma dimensão palpável à ameaça que simplesmente não existe em Fallen Kingdom. Ver estes dinossauros digitais, nos seus irrealistas movimentos, envergonha e muito a excelente indústria de efeitos práticos que outrora brilhou em Hollywood, e é uma pena. Tudo isso, aliado a uma indecisão entre tornar os dinossauros elementos de horror ou de aventura juvenil dentro do filme, fazem de Fallen Kingdom um filme objectivamente inferior, que, tal como os dinossauros geneticamente criados, desconhece a sua identidade. No entanto, e regressando ao cérebro cinéfilo pensante que iniciou o presente texto, fica um amargo de boca quando vemos a capacidade de J. A. Bayona, aprendiz de terror, a imprimir em Fallen Kingdom alguns dos elementos que compõe essa admiração de género, e é aí que Fallen Kingdom parece renascer dos fósseis. Quando decide encarar os dinossauros como elementos de horror mortífero que realmente são, parece que estamos a assistir a um outro filme, com uma linguagem cinematográfica segura de si que nos leva a pensar onde estavam os produtores com a cabeça, e todas essas cenas estão indubitavelmente associadas à asfixia do espaço fechado, do não ter para onde escapar. O long take subaquático, onde os protagonistas se encontram fechados dentro de uma esfera de vidro a inundar; a cena em que Dallas Howard e o seu jovem parceiro são perseguidos por um único dino-monstro dentro das instalações de segurança do parque perante uma cortina de lava incandescente que trespassa o tecto; e por último toda a sequência final, em que o ameaçador indoraptor persegue os protagonistas através dos corredores e escadarias da mansão Lockwood, em noite de lua cheia com direito a telhado gótico, qual espírito maléfico de garras compridas e afiadas que aterroriza as criancinhas que se escondem debaixo dos lençóis. É com esse minimalismo enclausurado, e não nas manadas jurássicas (e muito menos num t-rex digital cuja ameaça está mais perto de um desenho animado juvenil do que do aterrador modelo que rebentou a vedação no filme original), que Jurassic World: Fallen Kingdom consegue superiorizar-se. O franchise continuará, infelizmente e certamente, em dimensões ainda maiores e mais impessoais. Seria tão bom vê-lo em ponto pequeno e hermético outra vez, como em 1993...

Porque é bom: Algumas cenas interessantes, com apelo ao horror gótico e claustrofóbico, que permitem ao filme emergir de uma manada de dinossauros digitais

Porque é mau: Enredo esburacado, qual manta de retalhos, com identidade perdida entre ambientalismo, responsabilidade moral, clonagem, horror e aventura juvenil; fraco desenvolvimento de personagem, com um Chris Pratt demasiado estereotipado e elevado a herói que sozinho enfrenta mercenários corpo a corpo, de forma patética; dinossauros digitais francamente irrealistas que não permitem ao espectador mais empenhado obter qualquer calafrio: afinal de contas não está ali nada (saudades dos modelos de Jurassic Park em 1993)

domingo, 3 de junho de 2018

You Were Never Really Here (2018)



O Mercenário Existencialista

You Were Never Really Here, da escocesa Lynne Ramsay que não filmava desde We Need to Talk About Kevin, de 2011, é uma daquelas raras pedras preciosas, mais ou menos disfarçadas, que vão passando de vez em quando pelo nosso circuito comercial, com pouco burburinho e holofote (esse já lá vai, longínquo, quando passou pelo festival de Cannes 2017 vencendo o prémio de melhor argumento e melhor actor principal). Esta é, acima de tudo, uma experiência de exercício formal, uma observação atenta das entrelinhas que pautam o thriller de acção tradicional. You Were Never Really Here preenche, em sinopse, esse rótulo: um ex-veterano de guerra, traumatizado, que se tornou mercenário para trabalhos mais ou menos sujos (Joaquin Phoenix suja as mãos várias vezes com diversos fluidos, mas sempre por uma nobre causa, esse filho de sua mãe que a visita diariamente e a aconchega na cama). E essas regras de género estão, em tese, todas presentes, desde o aceitar de um "trabalho" ao confronto que o concretiza, no entanto não será esse o foco de Ramsay. O experimentalismo de Ramsay, e por consequência o grande ponto de interesse do filme (e que interesse!), surge na abordagem que é feita às tais entrelinhas: a preparação da emboscada, a observação paciente, as pequenas rotinas e deslocações, o ir buscar algo para comer, o alugar de um carro para o trabalho, o aguardar. A acção propriamente dita torna-se acessória, relegando o espectador para a qualidade de mero observador dos estados de alma do protagonista, com uma interpretação empenhadíssima de Phoenix que talvez nem precisasse de ser assim tão exigente consigo próprio, mas que acaba por o ser, e bem! Uma espécie de Taxi Driver moderno, com uma linguagem cinematográfica educada que faz dele um dos mais interessantes neo-noirs recentes, bem mais adequado, sólido e equilibrado que os devaneios de Nicolas Winding Refn, que acaba por se tornar paradigma desse subgénero nesta década, com mais ou menos mérito. A banda sonora é assinada por Jonny Greenwood, que de forma cada vez mais consistente se afirma como um dos mais interessantes e originais compositores cinematográficos da actualidade, como já demonstrou recentemente através de Phantom Thread. Toda a segurança e ponderação que Ramsay coloca na tela (a falta de informação que é dada ao espectador não permite a existência de pontas soltas a nível argumentativo) fazem de You Were Never Really Here uma experiência visceral que é dada à velocidade de uma martelada como as que Phoenix dá no filme, com uma enorme intensidade, suspensão e objectividade. Uma belíssima surpresa, que demonstra finalmente uma enorme maturidade cinematográfica que teimava em aparecer na filmografia da realizadora.

Porque é bom: Inovadora observação das entrelinhas raramente filmadas do thriller de acção; uma experiência cinematográfica que tem na forma a sua principal qualidade; um inspirado Taxi Driver moderno, com uma educada linguagem neo-noir objectiva e equilibrada; argumento original fantástico e uma interpretação superlativa de Joaquin Phoenix; excelente banda sonora de Jonny Greenwood.

Porque é mau: Apenas peca pela curta duração, mas ela faz parte integrante da experiência

domingo, 13 de maio de 2018

A Quiet Place (2018)


John Krasinski, realizador que igualmente protagoniza lado a lado com Emily Blunt este A Quiet Place, tem em mãos nobre tarefa de procurar refrescar o género cinematográfico mais irrefrescável de todos, o de terror, sempre sujeito a um hermético conjunto de regras que o compõe, ainda que dentro de um incontável número de subgéneros que vão desde o monster movie ao exploitation. Falar em originalidade no cinema de terror é uma falácia devido precisamente a esse conjunto de regras formais marteladas em pedra, ainda que se procure uma temática raramente abordada (como fez Get Out ao trazer o racismo para o terror). O problema é que esgotada a apresentação dessa ideia, num primeiro momento, o original filme fica despido do adorno que o diferencia e cai nas inescapáveis regras de género. E aí apenas lhe resta tentar fazer o seu melhor. A Quiet Place não é excepção. A característica da qual faz bandeira, o silêncio e uma quase total ausência de diálogo (que na verdade não existe pois o filme faz questão de guiar o espectador lendo os lábios das personagens e a sua linguagem gestual, afasto-o da mera observação, o que seria isso sim bem mais criativo, original e interessante), de pouco mais servem do que de fotografia postal convidativa e para colocar uma questão (essa sim interessante, mas enfim) meta-filosófica algo atabalhoada acerca da importância de se fazer silêncio numa sala de cinema, uma das grandes lutas do cinéfilo acérrimo. Acaba por ser algo triste que fazer silêncio numa sala de cinema não seja hoje em dia encarado como regra e que as pipocas com topping de m&m's sejam por vezes motivação maior do que o próprio filme para uma deslocação a uma sala de cinema. Nesse sentido, dir-se-ia social, A Quiet Place é vencedor. Esgotada a apresentação dessa ideia resta-nos o monster movie rotineiro que coloca uma família sobrevivendo a uma já estabilizada invasão levada a cabo por uma raça alienígena cega, mas com ouvidos de tísico. Sempre muito focado na acção, A Quiet Place nunca consegue amadurecer as suas personagens, enfiando de forma apressada, e muito ao de leve, o pequeno drama "pai que quer proteger a família e é duro nessa missão" vs "filha que não percebe que está a ser protegida e pensa que pai não gosta dela", que acaba por nos fazer suspirar por algo de mais visceral e condizente com o educado silêncio que pauta o filme, que não uma birra adolescente difícil de levar a sério atentas as circunstâncias. É essa tentativa de ser, além do terror, filme dramático focado em procurar passar uma imagem de família compassiva (como It Comes At Night fez brilhantemente) que acaba por manchar seu o foco, nunca deixando esse drama brilhar, uma vez que nunca existiu, encurralando-se o argumento numa perseguição de gato e rato, qual Alien: O Oitavo Passageiro. Resta-lhe o silêncio, esse orgulhoso trunfo que na verdade já havia sido recentemente explorado de forma bem mais eficaz e humilde no terror por Don't Breathe, realizado por Fede Alvarez (brilhante aluno e executante da linguagem do cinema de horror). É pena que, na verdade, sendo o seu ponto mais interessante, o som acabe por ser um artifício que Krasinski acaba por subaproveitar. Ele existe, sim, mas não seria possível fazer algo mais criativo com ele? No seu desenlace, que é talvez o momento de mais difícil execução neste género cinematográfico, surge-nos uma solução de contra-ataque tão básica como inverosímil, bem de acordo com toda a lógica apresentada até então, em tudo a fazer lembrar Signs de M. Night Shyamalan. No final Emily Blunt veste o fato de macaco, qual Ellen Ripley, e faz-nos questionar para onde foi o silêncio e a educação que Krasinski tanto quis imprimir no seu filme. Despido do seu silêncio resta-nos um monster movie simples, com um argumento frágil e pouco credível, que pouco mais tem a oferecer que uma bela realização e composição de imagem, e que está longe de ser uma obra-prima.

Porque é bom: Bela realização e cinematografia; o debate que consegue gerar acerca do silêncio numa sala de cinema

Porque é mau: Argumento frágil e pouco credível; personagens pouco amadurecidas; utiliza de forma pouco eficaz e criativa o seu principal trunfo, o silêncio; despido do adorno silêncio, revela-se um monster movie com pouco a oferecer.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Soldado Milhões (2018)


Realizado por Jorge Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa, Soldado Milhões tem lugar de destaque pela sua humildade e ausência de pretensiosismos ou paternalismos (olhamos directamente para Leonel Vieira e outros que tais), ainda que aqui exista a ambição de pelo menos tentar executar a raridade que é o género do cinema de guerra em Portugal. Desde logo o principal desafio de Soldado Milhões, o herói português da primeira guerra mundial que sozinho enfrentou hordas de soldados alemães permitindo a retirada dos seus companheiros, seria dar a volta às limitações orçamentais que uma produção de guerra (vistosa e dispendiosa) teria à luz da realidade da indústria portuguesa de cinema. Com efeito este Soldado Milhões aproxima-se quer visualmente quer narrativamente do glorioso Hacksaw Ridge, de Mel Gibson, que vimos recentemente, mas infelizmente (e porque não pode fazer mais), tem dificuldades em aprofundar os seus níveis de produção para algo mais que o mero testemunho de trincheira atabalhoado por uma certa teatralidade televisiva tão difícil de descolar do cinema português. É difícil ser exigente com Soldado Milhões, que faz o que pode, de forma descomplexada e ciente das suas próprias limitações (seriam precisos muitos mais milhões para que este soldado ficasse em ponto de rebuçado), mas é possível reconhecer-lhe esse valor de esforço, com uma inteligente (pelo menos no papel) estrutura narrativa em formato episódico e de memória que ajuda a disfarçar a ausência de pontos de ligação dos acontecimentos passados em 1918, que alterna entre duas linhas temporais: o companheirismo entre soldados e a guerra em 1918 e um "presente", anos mais tarde em 1943, onde um Aníbal Milhais mais velho enfrenta a sua própria imortalização enquanto herói e um stress pós-traumático formalmente pouco convicente. Dito assim, no papel, Soldado Milhões tinha tudo para ser um filme de belíssimo efeito, no entanto a realização, apesar de humilde e consciente das limitações de uma produção tão ambiciosa, falha na concretização narrativa, com personagens pouco ou nada amadurecidas, momentos dramáticos cujo peso falha completamente o alvo e é até difícil de contextualizar, e uma sequência narrativa muito confusa, repleta de erros de continuidade, que nem os cortes episódicos para a linha narrativa do "presente" conseguem disfarçar. O grosso da produção foca-se no cenário de guerra, ainda que em modo low budget (o único cenário de guerra propriamente dito é a trincheira onde a pequena guarnição portuguesa se encontrava), no entanto acaba por ser a tal elipse "presente" que observa um Aníbal Milhais mais velho o principal ponto de interesse dramático para o espectador, ao representar a sua relação com a filha enquanto caçam um lobo que anda a matar gado na região. Mesmo essa linha temporal sofre desses males que não conseguem descolar Soldado Milhões de um certo amadorismo, particularmente na sala de montagem, o que é uma pena. A cena mais aguardada e que motiva a existência do filme, a resistência solitária de Aníbal Milhais perante hordas de centenas de soldados alemães, é executada de forma confusa, desconexa, e se não conhecêssemos a história dir-se-ia que o soldado Milhais enfrentou uma dúzia de soldados alemães para salvar meia dúzia de portugueses, e bem sabemos que esses não são os números. Tudo teria corrido melhor se o calor de Valongo de Milhais, em Murça, onde se desenrola o "presente", pudesse dar espaço às episódicas memórias febris de Aníbal em jeito alucinatório de stress pós-traumático. Ao querer, em vão, ser realista e coeso, Soldado Milhões perde a ambiguidade que podia ter sido vantajosa no meio da sua produção minimalista. Não o fazendo, resta-lhe a honrosa função de homenagear um dos heróis da primeira guerra mundial de forma igualmente...honrosa.

Porque é bom: Produção humilde que não cai no pretensiosismo; corajosa resistência ao exagero dramático que facilmente podia ter sido inserido; interessante e raro exercício de cinema de género de guerra em Portugal

Porque é mau: Demasiadas incongruências técnicas e narrativas, que mancham todo o filme, dificultando que o mesmo seja levado a sério, ao invés de uma representação de baixo orçamento de um episódio de guerra; não consegue amadurecer as suas personagens, difíceis de identificar e demasiado genéricas´

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Annihilation (2018)


A aura distinta de Annihilation começa logo na sua produção e distribuição. Alex Garland, o realizador, já havia dado provas das suas intenções em renovar um género sci-fi que parece actualmente estar demasiado preso a um fogo de artifício expansivo, com boas ideias, mas pouca alma (vem-nos à memória recente Ghost in the Shell, Life ou mesmo Alien: Covenant). Na realização, a sua única incursão é Ex Machina, um filme que demonstra precisamente isso: um minimalismo consciente e detalhista, mais focado no drama de personagem do que propriamente no entretenimento associado ao género. Essa preocupação com a construção de personagem é, de resto, algo que já havia demonstrado com os argumentos que escreveu para Danny Boyle em 28 Days Later e Sunshine, filmes aos quais dramaticamente e visualmente este Annihalation por vezes não se coíbe de piscar o olho. Este forte cunho de autor, que em Ex Machina ainda escapa à "censura" de estúdio, e a consciência de que se está a fazer algo de diferente, minimalista, e potencialmente pouco apelativo a um público massificado, atirou Annihilation para fora das salas de cinema, estreando-o fora dos Estados Unidos na plataforma de streaming Netflix, confinando-o assim ao pequeno écrã no nosso país. Garland coloca um elenco composto por 5 protagonistas femininas, cientistas, encabeçado por Natalie Portman e coadjuvado pela sempre emocionalmente rigorosa Jennifer Jason Leigh, a investigar uma misteriosa e secreta zona confinada onde caiu um asteróide e de onde nenhuma expedição militar de investigação regressou. 


Ao longo de todo o filme Garland opta por pautar o ambiente de forma soturna, contemplativa, quase depressiva, de forma sempre minimalista mas ambiciosa pelos temas que decide abordar. Portman é corolário do tom de todo o filme, corporizando essas sensações numa primeira camada, adensada pelas suas co-protagonistas. Não existe preocupação em criar heroínas ou espalhafato, mas antes em desenvolver um mistério visual e científico sensível. E corajosamente Garland tem a preocupação de não glorificar de forma gratuita este protagonismo no feminino, nem faz desse tipo de elenco uma bandeira para segundas intenções. Annihilation é no feminino de forma natural, como deve ser, sem agendas escondidas ou comunicados sociais subliminares. Tal frontalidade terá que ser aplaudida. Essa não será, no entanto, a maior coragem de Garland. Antes o será a direcção argumentativa que escolhe para Annihilation (o título é algo infeliz, mas enfim). Com efeito, à medida que progredimos na misteriosa zona e no existencialismo das suas personagens, tudo a lembrar a obra-prima que é Stalker (1979) de Tarkosvky, claramente a maior influência de Annihilation, progredimos também na visceralidade de um horror sci-fi difícil de categorizar devido à sua originalidade, sempre com um peso e medida estóico, impassível de adornos e truques de encher o olho. Chegando ao clímax do filme, percebemos talvez o momento em que a irredutível visão de Garland colide com a do estúdio e que ditou a novela que foi a sua distribuição. O realizador impõe, de forma decisiva, uma ausência de diálogo e uma mescla de efeitos sonoros desconcertantes e atordoantes, transportando o espectador para um "pesadelo" febril de difícil caracterização. Toda a descrição visual que é feita em tela nesse momento é algo que encontra em cinema pouco paralelo, e isso é lindíssimo: não só consegue ser um pecado impossível de resistir para os amantes de ficção científica, como é um objecto cinematográfico maravilhoso, quer dramaticamente, quer visualmente, para os amantes mais exigentes da sétima arte. É também uma chapada de luva branca para a visão mercantilista dos estúdios da Paramount que, inexplicavelmente, previram em Annihilation um flop de bilheteira.

Porque é bom: Atmosfera psicologicamente carregada, desconcertante e minimalista; um brilhante horror sci-fi visceral de difícil categorização; densidade de personagem; visual original e atordoante; um longo e corajoso clímax que afasta Annihilation da linguagem cinematográfica comum, e que o torna num pequeno case study apetitoso para os amantes da sétima arte

Porque é mau: A ausência de distribuição nas salas de cinema e o directo para Netflix marca pela negativa a história de Annihilation; o argumento na sua vertente científica é por vezes incoerente e a psicologia das suas personagens, apenas sugerida, pode ser vista como superficial

terça-feira, 10 de abril de 2018

The Wailing (2016)


Havia muita expectativa para este The Wailing que não só foi correspondida como ultrapassada, e a prova disso é a sua estreia em sala em Portugal dois anos depois da sua estreia no festival de cinema Motelx, algo que raramente, para não dizer nunca, acontece. E não devemos falar dele de forma leve. Estamos perante um dos melhores thrillers sobrenaturais jamais realizados e há que dizê-lo sem pudores. O realizador sul-coreano Hong-jin Na já havia dados provas fortíssimas da sua habilidade com o seu primeiro filme, The Chaser, um thriller policial que, libertando-nos das regras desse género no cinema americano, conseguia olhar olhos nos olhos portentos como Se7en de David Fincher. Com The Wailing o realizador mantém a fórmula base, mas adiciona-lhe o ingrediente do mistério sobrenatural, o que faz toda a diferença e eleva a linguagem do seu cinema de género para algo com assinatura de autor, um sentimento orgânico tão raramente sentido nessa corrente pejada de clichés e linguagem cinematográfica derivativa. Seguimos a personagem principal habilmente interpretada por Do Won Kwak, um polícia de uma pequena vila sul coreana, trapalhão, cobarde, mas com um coração grande, que se vê deparado com uma série de mortes inexplicáveis e violentas na sua vila que começam a ocorrer após um solitário japonês (outra enorme interpretação, de Jun Kunimura) se ter mudado para as redondezas. O filme, de cerca de duas horas e meia, progride a um ritmo progressivo exacto, qual relógio suiço, num misto de influências que vão da comédia do cinema familiar, do trabalho e da relação com o polícia parceiro, ao adensar de um mistério surreal, mas ao mesmo tempo real, explorando os medos e crenças de cada um, e aqui desta pequena comunidade sul-coreana, analisada qual aquário. Há algo de estranhamente realista em The Wailing. O comportamento das suas personagens, a actuação da polícia, as suas famílias, as suas fragilidades e medos, a chuva, os automóveis, as refeições... Parece que Hong-jin Na tem essa preocupação, de trazer o espectador a um filme fantasioso que talvez, quem sabe, até pudesse ser real. Já havia essa sensação em The Chaser, mas aqui o prazer é diferente. Temos um mistério para resolver! E tudo isto podia ser aborrecido num filme tão longo, mas não é. Nunca. The Wailing vai-se renovando, inicialmente comédia leve  encaminhando-se pé ante pé para um horror sufocante, com inúmeros elementos de folclore local que dão ainda mais conteúdo e interesse à trama. Tudo isto se alia a uma cinematografia riquíssima, numa boa variedade de cenários, com planos meticulosamente construídos, objecto por objecto, num detalhamento visualmente tão delicioso que quase o conseguimos cheirar. Não há nada de negativo a apontar nesta experiência atordoante que sabe exactamente aquilo que está a fazer. Foi para filmes como The Wailing que nasceu o cinema de entretenimento.

domingo, 4 de março de 2018

Especial Óscares 2018 - Previsões, preferências, ausências e curiosidades

Está perto a 90º cerimónia dos Óscares, número redondo para a Academia. O lote de nomeados este ano é globalmente inferior ao do ano passado, com apenas 2 filmes a obterem acima de 3 estrelas no Fading Cam, no entanto todos os nomeados são no mínimo interessantes, ainda que mal executados, com uma variedade de géneros nunca antes vista numa cerimónia. Get Out representa uma das raras vezes que um filme de terror, ainda por cima racial, chega aos nomeados por demanda popular. Temos também a história de romance homossexual com cunho europeu de Call Me by Your Name e a fantasia grotesca de The Shape of Water, além do tradicional biopic de Darkest Hour e a mensagem social de The Post. Existe o indie realizado no feminino de Lady Bird e o drama histórico de guerra Dunkirk. No meio de tanta variedade os dois filmes que mais se destacam é o drama rural, com o melhor argumento do ano, de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri e a obra-prima plástica, as únicas 5 estrelas em 2 anos aqui atribuídas, que é Phantom Thread. Eis as escolhas, ausências, curiosidades e 5 motivos pelos quais The Shape of Water não deve vencer o grande prémio da noite:

As notas do The Fading Cam aos 9 nomeados para melhor filme (todas as críticas consultáveis na lista lateral e clicáveis)












As previsões, preferências e potenciais surpresas:

Óscar de melhor filme:
Quem vai ganhar - Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Quem deveria ganhar - Phantom Thread
Quem pode fazer uma surpresa - The Shape of Water


Este ano a lista de melhores filmes apresenta uma qualidade globalmente inferior ao ano passado, mas existem dois filmes que se superiorizam em relação a todos os outros: Phantom Thread e Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Enquanto Phantom Threat representa o maior achievement cinematográfico de todos os nomeados, com uma realização, interpretações e banda sonora perfeitas (é a única obra-prima do ano), Three Billboards representa o melhor que se pode fazer a nível argumentativo e de desenvolvimento de personagem, ilustrando sem pretensiosismos moralistas o sentimento de injustiça na América esquecida pelas grandes metrópoles. Shape of Water pode fazer uma surpresa, o que seria de uma enorme injustiça.



Óscar de melhor actriz principal:
Quem vai ganhar - Frances McDormand (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)
Quem deveria ganhar - Frances McDormand (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)
Quem pode fazer uma surpresa - Sally Hawkins, Margot Robbie e Saoirse Ronan (The Shape of Water, I, Tonya, Lady Bird)

Contrariamente aos nomeados para o melhor filme, esta é uma categoria muito equilibrada onde parece que a veterana Meryl Streep é a actriz que está pior posicionada para vencer. Também contrariamente às nomeadas do ano passado, este ano a qualidade das actrizes nivela-se por cima, com 3 excelentes interpretações: Frances McDormand, Margot Robbie e Saoirse Ronan, e uma outra, Sally Hawkins, que beneficia mais das características da personagem que interpreta do que da interpretação em si, um pouco como Eddie Redmayne em Theory of Everything. Frances McDormand deve vencer, com justiça.


Óscar de melhor actor principal:
Quem vai ganhar - Gary Oldman (Darkest Hour)
Quem deveria ganhar - Gary Oldman (Darkest Hour)
Quem pode fazer uma surpresa - Daniel Day-Lewis (Phantom Thread)


A colheita de nomeados para melhor actor é menos interessante que a das homologas do sexo feminino, o que pode ser um sinal dos tempos. Destaca-se Gary Oldman, que mais que habilmente interpretar Churchill num biopic típico de óscar, consegue elevar a personalidade do próprio filme que protagoniza, com brilhantes diálogos e monólogos que perfeitamente ilustram as capacidades do veterano actor, sobrepondo-se à vantagem que a própria caracterização da personagem já poderia trazer. Daniel Day-Lewis pode fazer uma surpresa devido ao facto de ser muitas vezes rotulado como o melhor actor dos nossos tempos e de este ser alegadamente o seu último filme.



Óscar de melhor actriz secundária:
Quem vai ganhar - Allison Janey (I, Tonya)
Quem deveria ganhar - Lesley Manville (Phantom Thread)
Quem pode fazer uma surpresa - Lesley Manville (Phantom Thread)


Dentro das categorias de interpretação, esta é a mais difícil de prever, já que nenhuma das nomeações é particularmente boa, nivelando-se. Com a excepção de Octavia Spencer e de Mary J. Blige, que não é actriz de profissão, as outras 3 nomeadas, por onde deverá ficar o óscar, estão mais ligadas à televisão que ao cinema. Allison Janey provavelmente vencerá pela sua longa carreira e pelo facto de ter já vencido com este papel o golden globe e o Bafta, mas a justa vencedora seria Lesley Manville, com a sua interpretação misteriosa, contida e imaculada dentro da perfeição que é Phantom Thread.



Óscar de melhor actor secundário:
Quem vai ganhar - Sam Rockwell (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)
Quem deveria ganhar - Sam Rockwell (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)
Quem pode fazer uma surpresa - Willem Dafoe ou Richard Jenkins (The Florida Project, The Shape of Water)


Desta vez são os nomeados masculinos que apresentam um lote mais interessante que as suas homólogas. Sam Rockwell deverá vencer com justiça no papel de polícia racista e saloio que encontra a redenção. Willem Dafoe, o melhor que The Florida Project tem para oferecer, poderá ver também o seu papel e carreira premiados, assim como Richard Jenkins por dar vida à audaciosa personagem de um homossexual de meia idade nos anos 60.



Óscar de melhor realizador:
Quem vai ganhar - Guillermo Del Toro (The Shape of Water)
Quem deveria ganhar - Paul Thomas Anderson (Phantom Thread)
Quem pode fazer uma surpresa - Greta Gerwig (Lady Bird)


Num ano em que Paul Thomas Anderson nos entrega a melhor realização da sua carreira, e uma das melhores, no mínimo, da década, infelizmente parece que o Óscar irá para Guillermo Del Toro que não tem tido vergonha em assumir que o deseja arduamente. Devido ao movimento #metoo e a todo o impacto social e político que os Óscares têm tido nos últimos anos o prémio pode simbolicamente ir para Greta Gerwig, uma vez que até hoje apenas uma mulher, Kathryn Bigelow, venceu este óscar, sendo Gerwig apenas a quinta nomeada em toda a história.



Óscar de melhor argumento original:
Quem vai ganhar - The Shape of Water
Quem deveria ganhar - Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Quem pode fazer uma surpresa - Get Out


A fábula grotesca de Del Toro deve vencer devido à originalidade e à mistura de temáticas que atira para o seu argumento. O justo vencedor seria Three Billboards, com os seus complexos arcos de desenvolvimento de personagem, diálogos e equilíbrio entre drama e humor negro. Get Out, apelidado como o mais original filme de terror dos últimos anos, focado no racismo, pode surpreender.



Óscar de melhor argumento adaptado:
Quem vai ganhar - Call Me by Your Name
Quem deveria ganhar - Call Me by Your Name
Quem pode fazer uma surpresa - Logan

Este é um óscar onde um dos nomeados, Call Me by Your Name, se destaca com uma grande distância para todos os outros, com um argumento habilmente escrito, desafiador de convenções e de uma linguagem cinematográfica sensível pouco associada aos grandes prémios. Logan, apelidado como o mais dramaticamente original filme de super-heróis até hoje, talvez apenas superado por The Dark Knight, pode apanhar todos de surpresa, embora seja pouco provável que tal aconteça.


Óscar de melhor fotografia:
Quem vai ganhar: The Shape of Water
Quem deveria ganhar: Blade Runner 2049
Quem pode fazer uma surpresa: The Darkest Hour


A palete húmida de Shape of Water deverá vencer, mas a identidade tonal sólida e forte de Blade Runner 2049, provavelmente o filme mais interessante do ponto de vista visual do ano, merecia atribuir a Roger Deakins o seu primeiro óscar ao fim de 14 nomeações. The Darkest Hour parece também bem colocado para vencer, apesar de não apresentar o melhor trabalho no campo da fotografia.



Óscar de melhor banda sonora:
Quem vai ganhar: Alexandre Desplat (The Shape of Water)
Quem deveria ganhar: Jonny Greenwood (Phantom Thread)
Quem pode fazer uma surpresa: Hans Zimmer (Dunkirk)

A banda sonora de Desplat, muito inspirada em Yann Tiersen, associada à popularidade de Shape of Water devem fazer com que receba o óscar, no entanto o justo vencedor seria Jonny Greenwood, que compõe para Phantom Thread uma banda sonora de grande variedade e complexidade, quase autonomizável enquanto personagem que habita todo o filme. O ruído hipnótico e ansioso de Hans Zimmer para Dunkirk, que obteve reacções extremistas quanto à sua qualidade, pode ser o vencedor surpresa.


Os dois grandes filmes que a Academia não nomeou para melhor filme:

Blade Runner 2049 


Pode ser polémico, mas não é descabido dizer que Blade Runner 2049 consegue em muitos campos superar o original. Dennis Villeneuve assina uma das melhores realizações de 2017, com um argumento notável, respirado, que estende o universo criado por Ridley Scott de forma rica e coesa. A forma equilibrada com que são introduzidos silêncios e movimento, mistério e acção, associada à mais brilhante cinematografia do ano (Roger Deakins), fazem desta uma das melhores sequelas de todos os tempos, uma obra de arte visual para admirar, com uma das mais criativas cenas do cinema de entretenimento dos últimos anos: as relações sexuais entre um andróide e um holograma.


Lucky 


O último papel do icónico Harry Dean Stanton, filmado quando tinha 90 anos, e que infelizmente não chegou a ver estrear devido ao seu falecimento duas semanas antes desse momento, não só merecia a nomeação, como deveria ser o grande vencedor do Óscar de melhor actor principal. Além de um olhar atento à ruralidade do deserto norte-americano, Lucky é uma humilde reflexão sobre a mortalidade, cristalizada no dia a dia do seu protagonista que, consciente do seu niilismo por vezes desconcertante que não se coíbe de expressar, se vê cada vez mais consciente da sua condição. Lucky é um dos mais belos filmes do ano e é imperdoável que não esteja nomeado em nenhuma categoria.



Os dois filmes "fora da caixa" que fazem história pela sua nomeação

Call Me by Your Name 

Basta lembrarmo-nos de Brokeback Mountain para perceber que não é a primeira vez que um romance homossexual chega aos Óscares. Ainda assim nunca aqui tinha chegado um tão audaz e tão reflexivo de uma delicadeza e linguagem cinematográficas normalmente associadas ao cinema europeu. Não é de espantar uma vez que o realizador Luca Guadagnino é italiano e filma a película no Norte de Itália, durante o tal Verão quente que pauta toda a atmosfera do filme. Não é comum um filme de origem europeia que não o Reino Unido ser nomeado para melhor filme, e muito menos um cuja temática é, em sentido estrito, a homossexualidade e, em sentido lato, a universalidade do amor.


Get Out 


É muito raro, ainda mais raro que nomear o sexo feminino para o Óscar de melhor realizador, um filme de género, nomeadamente de terror, ser nomeado para o Óscar de melhor filme. Get Out é apenas o terceiro na história, a seguir a O Exorcista (1974) e O Silêncio dos Inocentes (1991). A sua temática racial, tão raramente explorada no cinema de terror, atribui-lhe um cunho ainda mais único, vendo a sua originalidade argumentativa, que apenas se perde pelo final,premiada com esta nomeação. A vontade e pressão do grande público para que tal acontecesse ajudou.



5 razões pelas quais The Shape of Water não deve ser o grande vencedor da noite:

The Shape of Water conquista pela originalidade da sua fábula, no entanto a sua superficialidade e crise de identidade fazem com que este seja o pior dos nomeados para os Óscares deste ano. Parece um paradoxo absurdo que o pior dos nomeados seja, afinal, aquele que acabou por obter mais nomeações, com 13. Eis 5 razões para que não deva vencer o prémio maior.




#1 O romance apresentado não é credível

The Shape of Water foca-se no romance entre uma empregada de limpeza muda e um monstro aquático, todavia raros são os momentos em que as bases desse romance são demonstradas e desenvolvidas em écrã. A personagem de Sally Hawkins apresenta-se como uma mulher sexualmente carente, e a sua aproximação para com a criatura é forçada e descontextualizada, quanto mais ao ponto de desenvolver uma relação amorosa.

#2 Mistura várias géneros e temáticas de forma desconexa e subdesenvolvida

Del Toro orgulha-se de apresentar um filme pretensamente diferente que aborda o maior número de géneros que nele couberem, sem se preocupar com a sua articulação: romance, drama, terror, espionagem, preenchendo a quota politicamente correcta da homossexualidade e do racismo sem existir um motivo concreto para isso no argumento. Assim é batota.

#3 As personagens são estereótipos sem desenvolvimento, estereotipando ainda as minorias

Tudo em Shape of Water é estereotipado e explorado pela rama, a começar pelas suas personagens. O vilão de Michael Shannon é básico e sem qualquer característica que o distinga, Sally Hawkins é a desprotegida inocente, Octavia Spencer parece apenas preencher a quota racial com uma empregada de limpeza que faz frente ao seu marido, piscando também o olho ao orgulho feminino de forma bacoca, e Richard Jenkins o mesmo em relação à homossexualidade. Estas temáticas e problemáticas de minoria merecem um tratamento muito mais honesto em cinema do que a sua mera estereotipização básica e em nada melhoram a condição da sua discriminação na sétima arte. É lamentável que Del Toro se aproveite das actuais movimentações sociais para ganhar pontos com o seu filme desta forma. Pior, é lamentável a hipocrisia da Academia ao nomeá-lo em tantas categorias.

#4 O argumento é tão superficial e apressado que chega a ser embaraçoso

Del Toro tinha uma difícil tarefa de picar vários pontos para conseguir completar a sua obra prima, e esmagar tantos sub-géneros e mensagens sociais no mesmo filme tiveram um custo: nada é aprofundado e tudo é apressado, não chegando sequer a existir um diálogo minimamente interessante ao longo de todo o filme. Michael Shannon esforça-se, mas o material de base simplesmente não o deixa brilhar. Incrível como Richard Jenkins e Octavia Spencer estão nomeados apenas por interpretarem uma minoria e Michael Shannon fica de fora por interpretar um vilão que é tudo aquilo a que a Academia não quer ser neste momento: racista, machista e xenófobo.

#5 A cópia emocional de Amélie e a violência descontextualizada

Não é novidade a legítima comparação que tem vindo a ser feita entre Amélie e The Shape of Water. Com efeito os minutos iniciais do filme são quase uma cópia a nível de realização e argumento, e a própria caracterização, física e psicológica, da personagem principal de Sally Hawkins o são. Acresce a banda sonora de Alexandre Desplat, um autêntico pastiche de Yann Tiersen para Amélie. Del Toro tenta fugir à inocência e poesia do filme de Pierre Jeunet de várias formas, entre elas a introdução de cenas de violência e body horror completamente gratuitas e descontextualizadas.


As grandes ausências e surpresas nas nomeações

A ausência de Harry Dean Stanton (Lucky) para melhor actor principal

O veterano actor de 91 anos, que faleceu 2 semanas antes da estreia do seu último filme, deveria não só ter sido nomeado como ganhar o Óscar para melhor actor.






A injusta nomeação de Daniel Kaluuya (Get Out) para melhor actor principal

Apesar de Get Out ser um filme muito original, não deixa de obedecer à linguagem convencional do cinema de terror e Daniel Kaluuya tem uma interpretação banal dentro daquilo que é o cinema de género. Nomeá-lo é banalizar a categoria, e tal apenas aconteceu devido à simbologia da sua personagem e não à interpretação em si.



A bela nomeação e grande afirmação de Margot Robbie (I, Tonya) como melhor actriz principal

Se existe actriz ou actor que se destaca pela sua inesperada grande interpretação é Margot Robbie. A sua nomeação é justíssima e, não fora uma Frances McDormand superlativa, Robbie deveria vencer o Óscar de melhor actriz principal. O cinema americano ganhou a afirmação de mais uma grande actriz.





A injustíssima ausência de Vicky Krieps (Phantom Thread) para melhor actriz principal

Phantom Thread é equilibradamente encabeçado por uma competentíssima trilogia de actores, a começar pela desconhecida Vicky Krieps, personagem principal e narradora, que transporta todo o filme com uma interpretação visceralmente invasiva que supera a de Daniel Day-Lewis. Krieps tinha que estar nomeada.




A inexplicável nomeação de Meryl Streep (The Post) para melhor actriz principal

Começa a ser cansativo e quase anedótico ver Meryl Streep nomeada para o Óscar de melhor actriz principal ano após ano. Parece que tal se tornou uma obrigação politicamente correcta, independentemente de qual seja o filme ou papel interpretado, tendo a veterana mesmo sido nomeada pelo seu papel de bruxa num filme medíocre como Into the Woods. É lamentável, principalmente quando, neste caso, a sua personagem nem sequer é principal mas sim secundária.


A boa surpresa que foi a nomeação de Willem Dafoe (The Florida Project) para melhor actor secundário

A interpretação de Dafoe no filme de Sean Baker é uma das coisas mais reconfortantes que o cinema teve para oferecer em 2017. Sam Rockwell tem uma brilhante interpretação em Three Billboards, mas Dafoe venceria também muito justamente o Óscar.





A bela e inesperada nomeação de Lesley Manville (Phantom Thread) para melhor actriz secundária

A trilogia de actores de Phantom Thread fica completa com a misteriosa e austera personagem de Lesley Manville, que dá tom ao filme, mas ao mesmo tempo de dilui no seu cenário, quase como um espírito que habita a casa de Woodcock. Não se esperava a sua nomeação e a vitória seria justa.






A afirmação de 2 grandes actrizes de TV no cinema (Laurie Metcalf em Lady Bird e Allison Janney em I, Tonya)

É raro vermos ambas as actrizes no grande écrã, mais habituadas a fazer televisão. Ambas têm uma bela interpretação e é bom ver que a Academia perdeu o preconceito de nomear caras menos conhecidas.






A inexplicável ausência de Dennis Villeneuve (Blade Runner 2049) para melhor realizador

É mais uma ausência imperdoável. A seguir a Paul Thomas Anderson (Phantom Thread), Villeneuve apresenta o melhor trabalho a nível de realização do ano. Preconceito da Academia em nomear o realizador de uma sequela que não teve sucesso na bilheteira, em detrimento de livrar da acusação de preconceito por não nomear Jordan Peele (Get Out) e Greta Gerwig (Lady Bird), o que acabou por fazer.



A ausência de Blade Runner 2049, The Florida Project e I, Tonya para melhor argumento

Os três filmes oferecem 3 dos melhores argumentos que 2017 ofereceu, da ficção científica de Blade Runner 2049, à reflexão hiper realista social de The Florida Project, terminando nos cruéis bastidores do desporto de alta competição de I, Tonya. A Academia preferiu a xaropada de The Big Sick, a cada vez menor originalidade de Logan e a mediocridade de Molly's Game.




A nomeação de Boss Baby para melhor filme de animação

É algo que diz muito sobre o actual estado do cinema de animação Não existiria nenhum exemplar de animação japonesa para nomear em vez disto?

A brilhante banda sonora de Phantom Thread

Jonny Greenwood assina uma das melhores bandas sonoras de que há memória. Tem que levar a estatueta.

A lufada de ar fresco que é a música de Sufjan Stevens (Call Me by Your Name) para melhor canção original

É revigorante que pela primeira vez em anos o vencedor do Óscar de melhor canção original não seja, ao que tudo indica, uma megalomania pop. Terá o fenómeno Salvador Sobral chegado aos Óscares?





A superlativa qualidade da mistura e edição de som de Dunkirk

Desde Sully que não se via um candidato a mistura e edição de som tão forte. Dunkirk deve levar as duas estatuetas para casa.




A nomeação de A Bela e o Monstro para melhor guarda-roupa

Custa sempre ver cinema desta mediocridade associado aos grandes prémios do cinema norte-americano. Não se poderia ter nomeado para esta categoria Dunkirk ou Blade Runner 2049?