Talvez não tenha existido nenhum grande filme em exibição nesta edição do Motelx, mas também não vimos nada que fosse mau. Uma edição sólida com boas propostas de género onde In the Earth e The Feast foram talvez os filmes mais interessantes, ambos inseridos no novo subgénero de horror denominado eco-terror.
Um Fio de Baba Escarlate: É bom ver que Portugal começa a acordar para o cinema de género com novos cineastas interessados a explorar essa linguagem. Depois de Gonçalo Almeida em 2019, com Faz-me Companhia, é Carlos Conceição que apresenta Um Fio de Baba Escarlate, uma bela sátira que coloca um serial killer nas bocas do Mundo pela positiva após ter aparecido num video viral. Sem diálogo, talvez por motivos de internacionalização, mas que acaba por resultar num filme semi-mudo com uma linguagem cinematográfica algo nostálgica, Conceição leva-nos numa viagem com visuais normalmente associados ao giallo italiano. Com uma fotografia e um sentido estético e de ritmo que impressionam, Um Fio de Baba Escarlate eleva-se dentro do género, consciente da limitação da sua narrativa, o que o levou a optar por suprimir técnicas narrativas de forma a obter uns redondos 60 minutos de filme. Apesar de personagens estereotipadas, a estética do filme consegue colocá-las num plano misto de fantasia e realidade, o que lhes assenta que nem uma luva. Um Fio de Baba Escarlate só fica manchado pelo seu último terço, no qual parece que o seu realizador perdeu a sobriedade e segurança que tinha demonstrado até então a favor de preencher uma lista de elementos associados ao género de terror de forma algo imatura.
Coming Home in the Dark: Não há grande coisa a dizer sobre esta produção neozelandesa, um thriller de vingança algo comum acerca de um fim de semana de família na natureza que corre mal quando dão de caras com dois homens mal intencionados. Ainda assim decide arriscar uma ou outra ideia mais ousada, nomeadamente a da cumplicidade perante a inacção face a actos de violência, ou omissão de auxílio. Não há dúvida que Coming Home in the Dark é eficaz na forma como manipula o suspense no espectador, e o seu protagonista vilão é carismático o suficiente para nos manter interessados, no entanto não é um filme que irá deixar memória.
Run: Um dos filmes mais aguardados desta edição do Motelx é também um dos que menos arrisca em ideias e execução, e que mais se assemelha à linguagem de um certo tipo de thriller mais comercializável, como Don't Breathe, Ma, 10 Cloverfield Lane ou mesmo Split. Sarah Paulson é uma mãe possessiva e controladora que domina a vida da sua filha de 17 anos afligida por diversas doenças incapacitantes, até que algo corre mal. A filha, Kiera Allen, é uma actriz a ter em atenção para o futuro. Paulson, como sempre, está brilhante, uma espécie de Jack Nicholson no feminino, entre o doce e o psicótico, entre a segurança e o medo. Run é um thriller de horror sobre relações tóxicas bem executado, tal como já fora Searching do realizador Aneesh Chaganty, e eficaz, mas que acaba por cair nas armadilhas do género, desde os recortes de jornal escondidos que revelam a temível verdade, a plot holes infantis e imperdoáveis. Run entretém, mas podia ter feito muito, muito mais.
Three: Um thriller de serial killer vindo do Cazaquistão, com escola e linguagem cinematográfica dos thrillers modernos Sul Coreanos, bem executado por Pak Ruslan. Three traz-nos uma adaptação da história verídica de um assassino em série canibal que foi notícia no Cazaquistão em 1979, em pleno regime da União Soviética. A sua localização no tempo acaba por ser o mais interessante de Three, com uma construção de cenários e linguagem social que transportam o espectador para esta realidade cazaque de há 40 anos atrás. Dotado de interpretações fortes, desde o seu protagonista, um estagiário na força de investigação criminal, passando pelo chefe autoritário mas de moral inquestionável, terminando no seu aterrador vilão, o que acaba por faltar a Three é desenvolvimento de personagem e suspense. O filme que começa de forma intrigante e cheia de promessas, acaba por não cumprir, deixando-se arrastar de mini clímax em mini clímax, em duas velocidades.
Cross the Line: Apelidado de um dos melhores thrillers espanhóis dos últimos anos, Cross the Line coloca o típico trabalhador de colarinho branco certinho e cumpridor perante uma série de decisões que terá que tomar à medida que uma noite aparentemente normal se transforma num pesadelo após conhecer uma bela jovem tatuadora num bar. Cross the Line é um daqueles filmes que se coloca a si próprio nos píncaros do que "deve ser um thriller interessante", pintando a tela de neons e cores aguerridas que tanto estão na moda num certo cinema comercial mais rebelde que nos trouxe filmes como Nerve, Mandy ou Drive. É verdade que a interpretação de Mario Casas é boa, mas não basta isso e uma camera a seguir o protagonista com long shots para fazer um bom filme. Cross the Line simplesmente não é assim tão interessante.
Willy's Wonderland: Nicolas Cage mais uma vez presente no Motelx, desta vez em sessão da meia noite, num filme trash série Z delicioso e consciente de si próprio. Cage é um homem que viaja sem destino até que se vê forçado a enfrentar um grupo de bonecos robots de peluche que ganham vida de forma sanguinária num parque de diversões infantil abandonado. Com uma estética do trash dos anos 70/80, um argumento ridículo e uma presença digna de Cage cheia de one liners físicos (Nicolas Cage não tem qualquer fala durante todo o filme) e adolescentes rebeldes, estão presentes todos os ingredientes necessários para um belíssimo filme de entretenimento nocturno. Ainda assim Willy's Wonderland limita-se a ficar à superfície do seu conceito ridículo, e faria muito melhor se tivesse soltado as amarras que ainda prendiam algum do seu amor próprio, abraçando o trash a 100%. É divertido, mas podia ter sido ainda mais. Willy's Wonderland parece um filme retirado de um episódio de uma má série televisiva, mas a mera presença do seu protagonista, que foi de um dos melhores actores da sua geração (ainda o é mas enfim) até se tornar num meme, é suficiente para encher as medidas de quem quer apenas passar um bom momento com um filme. Não é afinal para isso que os filmes também servem?











