quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Motelx 2017 - Sessão de Abertura: Super Dark Times (2017)


Super Dark Times é um potencial filme de culto para um nicho muito particular, o mesmo nicho que eleva Donnie Darko a esse estatuto, filme ao qual tem sido directamente comparado e apontado como principal inspiração. Observamos a forte relação de amizade entre dois adolescentes na casa dos 17 anos num bairro suburbano norte-americano no início dos anos 90, que subitamente se vê afectada por uma tragédia que os dois amigos se vêm obrigados a esconder, algo que os irá perseguir numa espiral emocional apresentada de forma onírica e contemplativa até ao seu pouco robusto desfecho. Parece que a principal intenção do realizador Kevin Phillips é realizar um filme belo, uma reflexão realista mas negra sobre a raiva deste círculo de adolescentes que funciona a título de exemplo para todos os outros, com referências nostálgicas entre conversas e desafios que provavelmente todos tivemos a determinado momento do crescimento. Todavia o grande desafio de Super Dark Times é equilibrar-se de queixo elevado dentro do quadro imagético contemplativo que ele próprio pinta, numa corda muito frágil que, partindo, tomba para o campo de um pretensiosismo pesado injustificável pela sua substância argumentativa. Simbolicamente (porque Super Dark Times pouco mais vai além de uma descrição onírica de uma certa revolta juvenil) o filme faz tudo com peso e medida, com elementos que caracterizam de forma realista as emoções, reacções e consequências com que a geração representada (mais uma vez simbólica, exemplificativa) se vê confrontada, o que é feito com a preciosa ajuda dos seus dois bons actores principais. Na realidade não estamos a observar a história concreta destas personagens, como o filme nos tenta inesperadamente impingir ao filmar na sua cena final, e julgo que não se pode considerar um spoiler, o sol a bater na cara de uma das personagens secundárias, caracterizando-a sem motivo aparente, algo que nunca fez com reflexão com nenhum dos dois protagonistas, e aí, apenas no final, Kevin Phillips sucumbe à tentação. A estética do filme, aliada a uma banda sonora que lhe assenta que nem uma luva, será aprovada pelo gosto pessoal do espectador, mas mesmo para os não apreciadores nunca se torna incomodativa como o extremo do cinema de, por exemplo, Harmony Korine. Arriscando muito, Super Dark Times corresponde bem, mas não tem a robustez de substância necessária para glorificar o seu muito bom trabalho formal.

Porque é bom: Excelente tratamento estético; interpretação eficaz e hiper-realista dos seus dois protagonistas; um retrato representativo apurado de acção/reacção/consequência num circulo juvenil de classe média suburbana

Porque é mau: Por vezes desequilibra-se sucumbindo a algum pretensiosismo estético e argumentativo, de forma desnecessária; o terceiro acto da trama é pouco robusto e soa a desenrascado; carece de um desenvolvimento de personagem mais profundo, baseando-se demasiado na estética para esse fim ao invés de em argumento



Crítica também publicada em Comunidade Cultura e Arte

Sem comentários: